Porto Alegre, 17 de abril de 2026 – O mercado brasileiro de trigo foi sustentado por um conjunto de fundamentos altistas durante a semana, com destaque para a oferta doméstica enxuta, a dificuldade de acesso a produto de melhor qualidade e a crescente dependência do mercado externo. Ao longo dos últimos dias, o ritmo de negócios permaneceu pontual, refletindo o desalinhamento entre compradores e vendedores e a postura cautelosa da indústria.
Segundo o analista e consultor de Safras & Mercado, Elcio Bento, o ambiente segue marcado pela escassez de produto, especialmente nos padrões mais elevados. Esse fator foi determinante para a manutenção de preços firmes, mesmo diante de uma fluidez limitada nas negociações.
No Paraná, a semana foi marcada por uma demanda mais ativa, embora com forte heterogeneidade entre os agentes. Moinhos mais abastecidos trabalharam com indicações mais baixas, enquanto compradores com necessidade de recomposição de estoques aceitaram pagar valores mais elevados.
“Esse spread explica a baixa fluidez das negociações”, observa Bento, acrescentando que há uma tendência de convergência gradual nos preços.
No Rio Grande do Sul, o comportamento foi semelhante, com negociações pontuais e sustentação nas cotações. “O mercado está ajustado, com vendedores firmes e compradores atuando de forma seletiva”, destaca o analista. A diferenciação por qualidade se intensificou, ampliando o prêmio para lotes de melhor padrão.
A restrição de oferta também se refletiu em um descompasso relevante entre disponibilidade e demanda, especialmente no Paraná. O volume disponível é significativamente inferior à necessidade da indústria, reforçando a dependência de importações. Nesse contexto, a Argentina tende a assumir maior protagonismo como fornecedora, embora enfrente limitações relacionadas à qualidade do produto.
“A preocupação com o padrão do trigo disponível para exportação ganha peso estratégico, uma vez que pode limitar a oferta efetiva de produto panificável”, afirma Bento. Segundo ele, essa variável altera a dinâmica tradicional de formação de preços, ao incorporar não apenas volume, mas especificação, o que eleva prêmios e restringe alternativas de suprimento.
No exterior, o mercado foi influenciado por fatores geopolíticos e climáticos. A alta na Bolsa de Mercadorias Chicago (CBOT) ao longo da semana refletiu a escalada das tensões no Oriente Médio e as preocupações com o clima nas Planícies dos Estados Unidos. O risco de interrupções logísticas e a persistência de condições adversas para o desenvolvimento das lavouras mantiveram o viés de alta nas cotações internacionais.
Por outro lado, o câmbio atuou como elemento moderador no mercado doméstico. A valorização do real, com o dólar abaixo de R$ 5,00, reduziu o custo de importação e limitou repasses mais intensos aos preços internos. “A valorização do real reduz o custo de internalização do trigo importado, limitando repasses mais intensos nos preços internos, mesmo diante de fundamentos altistas”, explica Bento.
Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Safras News)
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