Porto Alegre, 9 de outubro de 2026 – O mercado do feijão carioca atravessou a semana em clara transição, passando de uma correção liderada pela ausência de demanda para uma recuperação seletiva da liquidez. No início do período, as cotações se afastaram dos R$ 360 por saca (sc) CIF São Paulo, na Bolsa, enquanto os intermediários passaram a trabalhar entre R$ 300 e R$ 315/sc e o comercial chegou a indicações de R$ 285/sc, sem reação relevante das compras. O analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, destaca que a resposta da origem foi reduzir a exposição, com recuo significativo das ofertas visíveis e encerramento da semana sem operações na madrugada.
“Essa retração não representou desaparecimento físico equivalente do produto, mas maior retenção seletiva e menor disposição dos vendedores em colocar volume num mercado pressionado por contrapropostas baixas”, destaca Oliveira.
No decorrer da semana, o comprador voltou primeiro às sondagens e depois aos negócios efetivos, reorganizando a curva de preços por qualidade. O padrão 9,5 confirmou negócios a R$ 345/sc CIF São Paulo, com corretores novamente testando R$ 350/sc. O nota 9 ganhou liquidez entre R$ 335 e R$ 340/sc, enquanto o 8,5 validou R$ 330/sc e passou a testar R$ 335/sc. Já o nota 8 sustentou valores entre R$ 315 e R$ 320/sc diante da oferta mais restrita. O 7,5 permaneceu mais pressionado, sem espaço para R$ 300/sc.
Qualidade, cor, umidade, quebra e rendimento seguiram determinantes na formação dos preços. Lotes secos e ressecados perderam competitividade, enquanto um nota 9 de excelente qualidade, próximo de R$ 340/sc, pode oferecer melhor custo-benefício que um produto superior cotado a R$ 355/sc.
No preço na origem (FOB), a semana começou pressionada e terminou com sinais mais consistentes de reação. Goiás sustentou a região de R$ 300/sc e fechou entre R$ 302 e R$ 308/sc. Minas Gerais avançou para R$ 298 a R$ 308/sc e Mato Grosso para R$ 290 a R$ 295/sc, enquanto o interior de São Paulo permaneceu entre R$ 330 e R$ 335/sc após leve correção.
“A leitura é de normalização comercial, ainda não de tendência altista consolidada”, avalia o analista.
A próxima etapa será verificar se os patamares de R$ 345 e R$ 350/sc ganham recorrência na Bolsa, se a origem amplia a oferta de qualidade e se a semana curta, com a Zona Cerealista fechada na segunda-feira, concentra reposições suficientes para sustentar uma nova reprecificação.
Feijão preto mantém comprador seletivo e vendedor resistente diante das incertezas da nova safra
O mercado do feijão preto permaneceu mais travado que o carioca durante a maior parte da semana, com menor fluidez, compradores seletivos e forte distância entre as pedidas e a capacidade de pagamento. Os melhores padrões chegaram a trabalhar próximos de R$ 290/sc CIF São Paulo, os comerciais bons entre R$ 260 e R$ 270/sc e os lotes mais fracos na Zona Cerealista entre R$ 230 e R$ 250/sc, evidenciando forte segmentação por qualidade.
Paraná e Santa Catarina iniciaram o período em leve queda, próximos de R$ 255 a R$ 262/sc FOB, enquanto as demais praças apresentaram menor alteração. O comprador manteve postura defensiva e, acima das faixas consideradas viáveis, as negociações frequentemente voltavam à estaca inicial.
Ao longo da semana, o comercial bom encontrou melhor ponto de encontro próximo de R$ 270/sc na Bolsa, mas o mercado continuou com dificuldades para validar níveis superiores. Paraná e Santa Catarina chegaram a lateralizar em torno de R$ 260/sc, sugerindo acomodação temporária após as correções anteriores.
No fechamento, porém, a estabilidade deu lugar à maior volatilidade regional. O Paraná registrou negócios pontuais de até R$ 265/sc, enquanto Santa Catarina voltou a operar abaixo de R$ 260/sc.
“Essa divergência reforça que a formação de preço depende cada vez mais de disponibilidade local, qualidade, necessidade de caixa e presença efetiva de compradores, não permitindo leitura uniforme de valorização ou baixa”, observa Oliveira.
A primeira safra 2026/27 continua sendo o principal contraponto estrutural. No Paraná, o plantio avançou de 39% para 52% da área estimada, com 91% das lavouras em boas condições e 9% em condição média. Do total, 25% estavam em germinação e 73% em desenvolvimento vegetativo.
Apesar do bom início, a área projetada recua 14%, para 88,3 mil hectares, enquanto a produção cai 8%, para 177,7 mil toneladas. O resultado depende de uma produtividade de 2.013 quilos por hectare, cerca de 6,9% superior à temporada anterior.
“O El Niño permanece como risco potencial para rendimento, qualidade e calendário, inclusive para a implantação da segunda safra”, aponta o analista.
Assim, o feijão preto encerra a semana entre maior volatilidade de curto prazo e uma oferta futura ainda dependente de desempenho produtivo favorável.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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