Porto Alegre, 2 de outubro de 2026 – O mercado do feijão carioca atravessou os últimos 30 dias em três fases distintas: retenção seletiva e liquidez amarrada, forte reprecificação e, posteriormente, correção com perda quase completa da urgência compradora. Nesse balanço do período, o analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, destaca que, no auge do movimento, R$ 350 por saca (sc) CIF São Paulo deixou de ser apenas pedida e R$ 360/sc chegou a ser efetivamente negociado na Bolsa, embora sem volume suficiente para transformar esse patamar em referência ampla.
A sustentação não veio de uma explosão de demanda, mas da oferta graduada pelo produtor, da ausência de excedentes e da dificuldade de encontrar determinados padrões. Quando mais de 10 mil sacas entraram de forma concentrada na Zona Cerealista, compradores já abastecidos reduziram ainda mais a necessidade de reposição, alterando rapidamente a relação de forças.
“A Bolsa terminou o período praticamente sem compradores, com preços predominantemente nominais, enquanto o poder de espera migrou para o empacotador”, observa Oliveira.
A correção subsequente foi relevante e regionalizada. O interior de São Paulo, que chegou a trabalhar entre R$ 350 e R$ 355/sc no preço na origem (FOB), recuou para R$ 330 a R$ 335/sc. Em Minas Gerais, as referências passaram de níveis próximos de R$ 320 a R$ 325/sc para R$ 295 a R$ 315/sc, enquanto Goiás acomodou para R$ 300 a R$ 310/sc. A Bahia, por sua vez, preservou algum prêmio, entre R$ 310 e R$ 320/sc.
Ao mesmo tempo, a qualidade ganhou peso crescente na formação dos preços. Lotes extra 9,5 excessivamente secos chegaram a trabalhar próximos de R$ 340/sc no Brás, enquanto mercadoria visualmente semelhante, porém com umidade mais adequada e melhor rendimento, encontrou negócios a R$ 350/sc.
“Bandinha, quebra, rendimento industrial e necessidade financeira passaram a explicar parte relevante da dispersão”, aponta o analista.
Na origem, a retenção seletiva permaneceu como contraponto à correção, pois nem todo produtor tinha necessidade imediata de caixa e a próxima oferta relevante ainda dependia da evolução da nova safra. Entretanto, essa resistência perdeu eficácia à medida que a reposição diminuiu e os corretores passaram a aceitar maior flexibilidade para tentar realizar negócios.
O mês, portanto, terminou com o carioca mais fraco comercialmente, mas não necessariamente estruturalmente superofertado. Para o empacotador, a estratégia passou a exigir rigor na margem operacional, avaliação por padrão e umidade e preferência por lotes de oportunidade cujo rendimento compense o preço nominal. Para o produtor, o negócio efetivamente realizado ganhou mais importância que a pedida.
“O próximo equilíbrio dependerá de onde a demanda reaparecer e de quanto a origem estará disposta a flexibilizar antes que a nova necessidade de reposição reduza novamente o poder de espera do comprador”, avalia Oliveira.
Feijão preto mantém fundamentos futuros restritivos apesar da menor liquidez
O mercado do feijão preto apresentou a trajetória altista mais consistente do período. Paraná, Santa Catarina e interior de São Paulo participaram de uma reprecificação ampla, sustentada pela menor disponibilidade, pela resistência dos vendedores e pela presença compradora em diferentes momentos.
No Paraná, as referências avançaram da proximidade de R$ 250/sc FOB para níveis acima de R$ 260/sc, chegando a mirar os R$ 270/sc. Santa Catarina também se aproximou desse patamar, enquanto o interior de São Paulo acelerou de referências próximas de R$ 252 a R$ 256/sc para R$ 295 a R$ 300/sc FOB.
“Esse movimento transformou R$ 300 FOB de expectativa futura em alvo efetivo de mercado”, destaca Oliveira.
O produto comercial também acompanhou a valorização na Bolsa, com negócios a R$ 275/sc e referências entre R$ 270 e R$ 280/sc CIF São Paulo para lotes comerciais de boa qualidade. Paralelamente, o produto argentino perdeu parte da vantagem competitiva ao aparecer entre R$ 285 e R$ 300/sc, reduzindo sua capacidade de funcionar como teto para o mercado doméstico.
No fechamento do período, porém, o preto também sofreu redução de liquidez. A ausência de compradores observada no mercado físico, a menor necessidade imediata de reposição e a maior cobertura das empresas reduziram as comercializações, levando o Paraná de volta à faixa próxima de R$ 260 a R$ 264/sc e estabilizando outras praças.
Ainda assim, a pressão comercial de curto prazo encontrou um contraponto mais forte que no carioca: a primeira safra 2026/27. No Paraná, o plantio avançou rapidamente de 18% para 39% da área em apenas uma semana. As lavouras implantadas apresentavam 93% em boas condições e 7% em condição média, contra 92% e 8%, respectivamente, na semana anterior, conforme o Departamento de Economia Rural (Deral).
“O quadro inicial é favorável, mas ainda não elimina o risco produtivo”, comenta o analista.
A produção paranaense segue projetada em 177,7 mil toneladas, queda de 8%, enquanto a área diminui 14%, para 88,3 mil hectares. A diferença entre a redução de área e de produção depende de uma produtividade estimada em 2.013 quilos por hectare, cerca de 6,9% acima dos 1.883 quilos por hectare da temporada anterior, segundo o Deral.
Esse ganho de rendimento é, portanto, decisivo para evitar uma quebra maior. O El Niño permanece como risco potencial para produtividade, qualidade e calendário, mas os dados mais recentes não mostram deterioração generalizada das lavouras. Até agora, predominam boas condições. O risco também alcança a segunda safra caso problemas climáticos atrasem a colheita e a liberação das áreas.
“Assim, o preto encerra o mês com mercado físico menos ativo, mas fundamentos futuros ainda restritivos: menor área, produção projetada inferior e forte dependência de produtividade preservam sensibilidade a qualquer frustração da nova safra”, conclui Oliveira.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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