Porto Alegre, 18 de setembro de 2026 – O mercado do feijão carioca encerrou a semana em condição muito diferente daquela observada no início do período. A paralisia funcional, os pregões vazios e a pressão baixista cederam espaço para uma firmeza seletiva. De acordo com o analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, o movimento foi sustentado principalmente pela retenção seletiva na fonte e pela menor disponibilidade dos lotes superiores.
Os melhores extras voltaram a encontrar negócios reais, com operações confirmadas a R$ 350 por saca (sc) CIF São Paulo, na Bolsa, para embarque e entrega programada, enquanto cargas contratadas ao longo da semana continuaram sendo entregues entre R$ 340 e R$ 350/sc.
“O movimento não foi provocado por choque de demanda, mas pela resistência do produtor em aceitar valores inferiores e pela dificuldade de reposição em determinados padrões”, observa Oliveira.
A diferenciação por qualidade tornou-se ainda mais determinante. Lotes com boa umidade, peneira alta e notas superiores receberam prêmio, enquanto os ressecados, quebradiços ou com menor rendimento comercial enfrentaram resistência e até devoluções. Paralelamente, comerciais nota 8 ou inferiores também encontraram procura, revelando que o empacotador segue priorizando a relação entre qualidade, custo e margem operacional.
No preço na origem (FOB), o extra nota 9 ou superior permaneceu entre R$ 335 e R$ 340/sc no interior de São Paulo e entre R$ 310 e R$ 315/sc em Minas Gerais, enquanto Goiás consolidou referência próxima de R$ 300/sc.
“A dispersão mostra que origem, padrão e condição de entrega seguem formando mercados distintos”, destaca o analista.
No fechamento semanal, o comprador aparece relativamente abastecido e menos agressivo em novas aquisições, o que explica a liquidez mínima na Zona Cerealista, sem caracterizar reversão de preços. Corretores passaram a trabalhar mais por amostras, enquanto o fluxo efetivo migrou para pós-pregão, embarques e entregas programadas.
O principal vetor de curto prazo continua sendo a disposição da origem em vender. Enquanto o produtor mantiver a retenção, os preços encontram sustentação; uma liberação maior de produto devolveria poder de barganha ao comprador.
“A leitura é de consolidação firme, mas seletiva, sem espaço para interpretar a valorização como movimento uniforme em todas as qualidades e praças”, avalia Oliveira.
Feijão preto pode ganhar demanda preventiva com risco de escassez futura
O mercado do feijão preto, por sua vez, apresentou mudança mais intensa na semana. Depois de um longo período vazio de negócios e referências pressionadas, entrou em clara reprecificação, liderada principalmente pelo Paraná. O extra Tipo 1 passou a testar R$ 250/sc no Sul paranaense, enquanto o interior de São Paulo se manteve firme entre R$ 252 e R$ 256/sc. Santa Catarina apresentou leve acomodação, para R$ 238 a R$ 242/sc, mostrando que a alta não ocorre de forma homogênea.
Pedidas próximas de R$ 300/sc chegaram a aparecer para lotes superiores, mas esse patamar ainda não possui validação equivalente à observada no carioca, ao menos neste momento.
“A sustentação continua vindo mais da oferta do que da demanda”, observa Oliveira.
Os vendedores mantêm resistência, o custo de reposição aumentou e o comprador vem absorvendo gradualmente a valorização, sem corrida generalizada por produto. A presença de ofertas importadas argentinas funciona como contraponto potencial ao avanço doméstico, enquanto a amplitude das referências no Paraná reforça a segmentação por tipo, qualidade e condição comercial.
O mercado permanece regionalizado, com diferentes velocidades de ajuste entre o Sul e o interior paulista. “A valorização atual deve ser interpretada como reprecificação provocada pela menor disposição de venda e pelas expectativas sobre disponibilidade futura, e não por expansão súbita do consumo”, destaca o analista.
O risco da primeira safra 2026/27 passou a ganhar peso crescente nas decisões. Compradores começam a acompanhar os possíveis impactos do El Niño sobre as lavouras e o risco de eventual quebra, com consequente escassez de feijão preto. Caso essa percepção avance, a postura atual de compras graduais pode migrar para movimentos preventivos de cobertura, adicionando demanda a um mercado já sustentado pela origem.
Por outro lado, se as novas ofertas surgirem sem perdas relevantes, a pressão compradora tende a permanecer limitada. O curto prazo segue firme, mas condicionado à evolução da primeira safra, à resistência dos vendedores e à capacidade dos compradores de absorver novas altas sem comprometer margens.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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