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Feijão entra em descoberta de preços com retenção na origem e menor oferta negociável

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Porto Alegre, 14 de agosto de 2026 – O mercado do feijão carioca encerra a semana em uma fase mais complexa do que uma simples recuperação de preços. Segundo o analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, a principal mudança ocorreu na postura da ponta vendedora. “Depois de aceitar níveis mais baixos por necessidade de caixa, o produtor passou a administrar melhor a comercialização, separar lotes por qualidade e reduzir a disposição para entregar mercadoria aos valores anteriormente praticados”, explica. O analista acrescenta que a oferta física continua existindo, mas a oferta efetivamente negociável diminuiu.

Esse comportamento ganhou respaldo nas principais praças, especialmente no carioca de melhor padrão, com o interior paulista chegando a R$ 276 por saca (sc), o Triângulo Mineiro entre R$ 255 e R$ 260/sc e Mato Grosso até R$ 220/sc. A diferença regional continua elevada, mas a reação simultânea das principais origens mostra que a pressão baixista perdeu parte de sua capacidade de impor preço.

“O ponto central, entretanto, é separar pedida de negócio”, destaca Oliveira.

Na Bolsa, o carioca 7,5 passou a testar R$ 260 a R$ 270/sc CIF São Paulo, enquanto lotes 8,5 e 9 chegaram a apresentar pedidas entre R$ 275 e R$ 285/sc. Ainda não há volume suficiente de fechamentos para tratar esses níveis como nova referência nacional. O comprador permanece disciplinado, realizando reposição conforme sua necessidade e evitando formar estoque diante de uma demanda ainda contida.

Com pouca oferta no período e ausência de compradores com demanda significativa, a liquidez ficou amarrada. A qualidade, por sua vez, tornou-se elemento decisivo: nota de cor, peneira, aspecto visual e rendimento comercial estão ampliando a diferença entre lote de ponta e mercadoria comercial.

“O mercado está menos vendedor, mas ainda não necessariamente mais comprador”, observa o analista.

Para o restante do segundo semestre, o cenário dependerá da capacidade de a indústria recompor estoques sem encontrar oferta suficiente nos níveis antigos. No curto prazo, o viés é de estabilização, com possibilidade de novas tentativas de alta nos lotes superiores, desde que a retenção na fonte persista e os negócios confirmem as pedidas atuais.

No médio prazo, a sustentação poderá ganhar força caso o consumo varejista melhore e as empacotadoras precisem elevar a reposição. Porém, uma recuperação ampla exigirá aumento simultâneo de preço e volume negociado.

“O risco baixista permanece associado à necessidade financeira do produtor, enquanto o principal risco altista está na escassez relativa de feijão de melhor padrão”, avalia Oliveira. A conjuntura mudou de um mercado pressionado para um ambiente de descoberta de preços, ainda sem confirmação de uma virada estrutural.

Feijão preto mantém dinâmica própria, mais equilibrada e menos direcional
O mercado do feijão preto permanece em condição estável. A formação de preços continua condicionada à disponibilidade regional, à qualidade dos lotes e à capacidade da indústria de trabalhar com mercadoria comercial sem comprometer o padrão exigido pelo varejo.

No FOB (preço na origem), o Oeste de Santa Catarina aparece em R$ 213/sc, o interior paulista em R$ 234/sc e o Sul do Paraná em R$ 209/sc. O comprador demonstra maior interesse por produto comercial de boa qualidade, enquanto a disponibilidade de lotes extra permanece como ponto de atenção.

“O problema não é simplesmente quantidade de produto, mas encontrar mercadoria adequada ao padrão necessário para reposição”, comenta o analista.

Pelo lado da demanda, a indústria continua trabalhando de maneira defensiva, evitando alongar estoques e priorizando compras de necessidade imediata. Esse comportamento mantém a liquidez restrita e limita a capacidade de repasse de aumentos para o varejo.

Ao mesmo tempo, o produtor que possui armazenagem e não enfrenta necessidade imediata de caixa consegue selecionar melhor o momento de venda, enquanto vendedores mais pressionados financeiramente continuam funcionando como referência para negócios de menor valor. No varejo, a capacidade de repassar aumentos dependerá do giro e da resistência do consumidor, o que reduz o espaço para uma escalada rápida da matéria-prima.

“A ausência de uma procura mais agressiva mantém a variedade em uma posição de equilíbrio delicado entre disponibilidade regional, reposição industrial e consumo”, observa Oliveira.

Para o restante do segundo semestre, o viés tende a permanecer lateral a levemente firme, mas com menor potencial de valorização imediata que o carioca superior. No curto prazo, a sustentação dependerá principalmente da retenção do produtor e da necessidade de reposição dos empacotadores; no médio prazo, uma melhora consistente dependerá de estoques mais ajustados na indústria e de maior capacidade de absorção pelo varejo.

A disponibilidade de produto Extra será determinante para a formação dos prêmios, enquanto lotes comerciais poderão continuar encontrando maior facilidade de negociação.

“Ainda não há uma força compradora suficientemente ampla para provocar reprecificação generalizada, mas também já não existe a mesma facilidade para reproduzir níveis inferiores caso a oferta de qualidade permaneça seletiva”, aponta o analista.

Terceira safra entra em fase decisiva, com colheita próxima de 60%
A terceira safra 2025/26 entra na fase decisiva de oferta, com a colheita próxima de 60% da área e tendência de aceleração. Segundo Oliveira, a produção do Centro-Sul é estimada em 545 mil toneladas, acima das 501,8 mil toneladas da temporada anterior, mantendo a perspectiva de entrada relevante de produto nas próximas semanas.

Apesar do aumento da oferta, o analista ressalta que isso não significa abundância de produto de ponta. O clima seco já começa a produzir lotes mais ressecados, ampliando a diferença entre os padrões comerciais e superiores.

No curto prazo, o viés permanece baixista a lateral, com maior possibilidade de pressão sobre os padrões comerciais, enquanto os lotes de ponta tendem a apresentar maior capacidade de defesa. 

Saiba mais:
Comercialização, safra e riscos que podem mexer com o mercado de feijão

 

Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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