Porto Alegre, 21 de maio de 2026 – O mercado brasileiro de feijão atravessa um momento de forte pressão altista, sustentado pela combinação entre redução de área, quebra qualitativa, estoques apertados e problemas climáticos. De acordo com o analista da Safras & Mercado, Evandro Oliveira, a atual escalada dos preços “não nasce de um único fator isolado”, mas da soma entre oferta restrita, atraso de colheita, dificuldades logísticas e um ambiente climático adverso para a cultura.
Segundo Oliveira, o mercado físico vive “um evidente estado de estresse”. O produto superior praticamente desapareceu, enquanto compradores operam sob forte necessidade de reposição. “Mesmo com liquidez mínima, os preços seguem renovando máximas”, afirma.
Para o analista, o principal diferencial deste ciclo é o “aperto qualitativo”. O avanço dos preços do feijão carioca, segundo ele, “já pode ser classificado como um dos movimentos mais agressivos dos últimos anos”. No FOB, o interior paulista passou a testar R$ 500 por saca, enquanto o Noroeste mineiro trabalha próximo de R$ 465.
Historicamente, movimentos dessa magnitude ocorrem quando o mercado percebe risco concreto de desabastecimento entre safras. E, segundo Oliveira, “este parece ser exatamente o caso atual”.
O Paraná, principal origem da segunda safra, sofreu forte redução de área. A segunda safra paranaense perdeu cerca de 24% da área total, enquanto a primeira safra recuou mais de 32% no estado. Em nível nacional, o Brasil também reduziu área tanto na primeira quanto na segunda safra. “O agravante é que o ganho de produtividade não foi suficiente para compensar a perda estrutural de área”, aponta.
Além da menor oferta, o clima elevou a preocupação do mercado. As geadas registradas na primeira quinzena de maio no Paraná alteraram significativamente a percepção de risco. Regiões importantes para a segunda safra registraram temperaturas próximas de zero, além de episódios de congelamento superficial e paralisação metabólica das plantas.
Segundo Oliveira, o temor não está apenas na produtividade, mas principalmente na qualidade física do grão. “No feijão, qualidade vale prêmio. E neste momento, vale muito prêmio”, destaca. O frio seguido por umidade e chuvas elevou os receios de escurecimento precoce, manchamento, perda de peneira e aumento de defeitos visuais.
O analista ressalta ainda que o feijão de escurecimento lento “virou praticamente uma categoria rara dentro do mercado brasileiro”, tornando a estabilidade visual um fator central de precificação para empacotadoras e grandes marcas.
Minas Gerais, que poderia aliviar parte da oferta, também enfrenta dificuldades. O excesso de chuvas no início do ano comprometeu o plantio da safrinha mineira, atrasou o desenvolvimento das lavouras e reduziu o potencial produtivo em diversas regiões. Além disso, parte importante da produção permanece dentro do próprio estado para abastecimento regional.
No caso do feijão preto, a forte valorização do carioca acelerou o efeito substituição. “Com o consumidor buscando alternativas mais acessíveis, o feijão preto ganhou tração no varejo e começou a reduzir estoques de maneira acelerada”, afirma Oliveira.
No FOB, o interior paulista já rompeu R$ 255 por saca. O Paraná trabalha com negócios acima de R$ 235, enquanto algumas pedidas superam R$ 250. Santa Catarina também entrou em forte valorização.
Mesmo com preços historicamente elevados, Oliveira afirma que ainda não existe pressão relevante de venda. A indústria segue comprando apenas necessidades imediatas, o que reduz a liquidez e aumenta a sensibilidade do mercado diante de novos problemas climáticos ou da ausência de lotes superiores.
Ao mesmo tempo, o varejo começa a testar seus próprios limites. “Até que ponto o consumidor conseguirá absorver um feijão carioca premium trabalhando próximo ou acima de R$ 10 por quilo na gôndola?”, questiona o analista.
A terceira safra, historicamente vista como complementar, passou a assumir papel estratégico no abastecimento brasileiro do segundo semestre. Com produção potencial próxima de 700 mil toneladas, qualquer problema climático nesta etapa pode alterar significativamente o equilíbrio nacional de oferta e demanda.
Apesar do ambiente claramente altista, Oliveira pondera que o mercado de feijão possui forte componente psicológico e elevada volatilidade. Ainda assim, ele considera difícil enxergar uma reversão consistente no curto prazo enquanto persistirem “oferta física extremamente curta, baixa disponibilidade de produto superior, cortes relevantes de área, risco climático elevado, estoques apertados, atraso de colheita e retenção por parte do produtor”.
“O feijão brasileiro deixou de operar apenas sob lógica de sazonalidade e passou a trabalhar sob lógica de escassez estratégica”, resume o analista.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
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