Porto Alegre, 30 de outubro de 2026 – O mercado brasileiro de trigo encerra outubro com preços firmes para o produto de qualidade, mas limitados pelo custo do cereal importado. O quadro de oferta restrita, baixa qualidade, dependência externa e câmbio instável foi o pano de fundo na reunião do setor durante o 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado nos dias 21, 22 e 23 do mês.
O evento reuniu players do setor para debater desafios da cadeia. Durante o congresso, a Abitrigo consolidou sua projeção de importação recorde em 9 milhões de toneladas, a maior dos últimos 30 anos.
Conforme Safras & Mercado, a safra 2026/27 deve cair 449 mil toneladas (8,1%), para 5,096 milhões de toneladas. O volume é 37% inferior às 8,12 milhões de toneladas colhidas em 2025/26. A projeção da consultoria é de que a importação deva chegar a 9,75 milhões de toneladas, o maior volume dos últimos 30 anos e quase o dobro da produção nacional.
Segundo o analista de Safras & Mercado, Thiago Oleto, chuvas frequentes, baixa luminosidade e doenças reduziram a produtividade e a qualidade dos grãos em quase todas as regiões produtoras. Em São Paulo, há indícios de perda de cerca de 95% da safra. No Paraná, a colheita chegou a 88% da área, mas a parcela de lavouras em boas condições caiu de 60% para 41% ao longo do mês.
O trigo Tipo 1, adequado à panificação, ficou escasso, e os lotes de qualidade inferior passaram a ser negociados com descontos maiores.
Paraná sustenta preços; Rio Grande do Sul cede
Os preços seguiram caminhos diferentes nos dois principais estados produtores. No Paraná, a falta de trigo de qualidade sustentou as cotações, e a tonelada terminou o mês a R$ 1.520 em Ponta Grossa.
No Rio Grande do Sul, a colheita chegou a cerca de 19% da área e derrubou as referências em até 9% desde o início de outubro, com Carazinho a R$ 1.420 por tonelada.
De acordo com Oleto, durante a maior parte do mês, o trigo argentino funcionou como teto para os preços internos. Com o dólar abaixo de R$ 5,00 e a queda do preço de exportação na Argentina, o custo de importação recuou. Até o dia 20, 41% do trigo embarcado pela Argentina em outubro teve o Brasil como destino.
O quadro mudou na reta final. Após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, o dólar subiu mais de 8% frente ao real no pregão de 26 de outubro. A alta encareceu a importação e deu suporte aos preços do trigo nacional neste fim de mês.
Argentina responde por 75% dos desembarques
O line-up, programação dos desembarques de trigo no Brasil, indicou 1,208 milhão de toneladas programadas para importação de setembro a dezembro, 37,9% acima das 875,9 mil toneladas do mesmo período da temporada passada. Por mês, são 305,3 mil t em setembro, 539,1 mil t em outubro, 334 mil t em novembro e 30 mil t em dezembro.
A Argentina lidera as origens, com 910.255 t (75,3%), seguida pelo Canadá, com 97.066 t (8,0%). Outras 201.000 t (16,6%) têm origem ainda a confirmar.
Os desembarques seguem concentrados. São Paulo lidera, com 327.494 t, seguido por Ceará (201.837 t), Paraná (188.175 t), Bahia (154.769 t) e Pernambuco (120.800 t). Os cinco primeiros estados concentram 82,2% do volume previsto. A cabotagem segue sem registros.
Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Agência Safras)
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