O mercado de feijão encerrou abril com forte aperto de oferta e sustentação consistente nas cotações, principalmente no carioca. Ao longo do mês, o cenário refletiu um quadro estrutural mais enxuto, conforme destaca o analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira.
“Esse é o principal fundamento altista do mercado”, avalia Oliveira, ao apontar a forte redução dos estoques.
A área plantada projetada para 2026/27 caiu 5,7%, para 2,575 milhões de hectares, enquanto a produção recuou 5,5%, para 2,950 milhões de toneladas. A oferta total caiu 10,2%, para 3,237 milhões de toneladas, com estoque inicial recuando de 470 mil para 252 mil toneladas (-46,3%). O principal destaque foi o estoque final projetado em apenas 62 mil toneladas, queda de 75,4%, levando a relação estoque/consumo para apenas 2,2%, contra 8,9% no ciclo anterior.
No Paraná, principal estado produtor, a primeira safra teve corte superior a 30% de área, enquanto a segunda safra registrou redução de 31%, saindo de 348,5 mil para 239,2 mil hectares. A produção caiu 20%, de 539,5 mil para 434,1 mil toneladas, mesmo com produtividade maior, projetada em 1.815 kg por hectare.
“O risco climático e a menor área consolidaram o viés de escassez”, observa o analista.
Em Minas Gerais, excesso de chuvas atrasou o plantio e a entrada mais forte da segunda safra ficou para a segunda quinzena de maio. No Rio Grande do Sul, regiões como Campos de Cima da Serra registraram produtividades próximas de 1.200 kg por hectare, abaixo do potencial.
No mercado físico, o feijão carioca extra nota 9 ou superior saiu da faixa de R$ 365 a R$ 380 por saca (sc) CIF São Paulo no início do mês para negócios entre R$ 390 e R$ 395/sc, com relatos pontuais de até R$ 400/sc para nota 9,5. No FOB (preço na origem), interior de São Paulo fechou entre R$ 384 e R$ 386, Noroeste de Minas entre R$ 380 e R$ 382 e Sul do Paraná entre R$ 336 e R$ 338. Já os padrões intermediários ficaram entre R$ 340 e R$ 360 para nota 8,5 e R$ 300 a R$ 340 para nota 8.
“O spread entre comercial e extra aumentou fortemente, mostrando que o mercado remunera qualidade e não apenas volume”, aponta Oliveira.
Feijão preto ainda opera com cautela, mas substituição pode acelerar recuperação
O feijão preto passou boa parte de abril lateralizado, com baixa liquidez e excesso relativo de oferta, principalmente de lotes remanescentes da safra anterior.
“O viés predominante foi neutro, com pressão maior pela proximidade da segunda safra e pela dificuldade de giro no atacado”, comenta o analista.
Os padrões comerciais trabalharam entre R$ 165 e R$ 180 por saca (sc) CIF São Paulo, enquanto os melhores lotes ficaram entre R$ 190 e R$ 225/sc. As vendas foram lentas, com compradores cautelosos e pouca urgência para formação de estoque.
Na reta final do mês, porém, o feijão preto começou a ganhar força como alternativa diante da forte alta do carioca.
“Setores mais sensíveis a custo passaram a avaliar substituição parcial de consumo”, observa Oliveira.
Com o carioca nota 8,5 e 9 operando entre R$ 360 e R$ 390/sc CIF São Paulo, esse movimento se destacou especialmente em refeições coletivas, abastecimento institucional e programas de abastecimento popular, trazendo melhora na percepção de mercado e abrindo espaço para recuperação gradual das cotações do preto.
As referências FOB passaram para R$ 186 a R$ 188 no interior de São Paulo, R$ 161 a R$ 163 no Sul do Paraná e R$ 163 a R$ 165 no Oeste de Santa Catarina.
“O mercado ainda não apresenta forte tração compradora, mas já mostra mudança de viés”, destaca o analista.
O feijão preto começa a “pegar carona” na valorização do carioca e pode ganhar mais espaço caso essa arbitragem de consumo se intensifique em maio.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
Copyright 2026 – Grupo CMA




