Porto Alegre, 1º de julho de 2026 – O mercado brasileiro de arroz começa a apresentar sinais de mudança após meses marcados por excesso de oferta, pressão de comercialização e margens apertadas ao produtor. Embora o cenário ainda exija cautela, fatores internos e externos passaram a favorecer um reequilíbrio gradual dos fundamentos do setor, avalia o analista da Safras & Mercado Evandro Oliveira.
Segundo Oliveira, o segundo semestre tende a ser marcado por uma disputa entre fatores de sustentação dos preços e o elevado volume de estoques acumulados no Mercosul. “A narrativa exclusivamente baixista começa a perder força. Ainda não estamos diante de um mercado de forte valorização, mas os fundamentos estão se tornando cada vez mais construtivos”, afirma.
Um dos principais elementos dessa mudança veio dos Estados Unidos. O relatório de área plantada divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou uma redução expressiva da área destinada ao arroz longo fino, variedade que concorre diretamente com o produto brasileiro.
“A queda de aproximadamente 34% na área plantada reduz o potencial produtivo e a disponibilidade exportável dos Estados Unidos. Isso tende a elevar os preços de exportação norte-americanos e melhora a competitividade do arroz brasileiro no mercado internacional”, explica Oliveira.
Outro fator que ganhou relevância nas últimas semanas é a perspectiva de menor oferta em importantes países asiáticos. Problemas climáticos e a influência do El Niño aumentam as preocupações em relação à produção da região, que concentra grande parte da oferta mundial.
“Menores excedentes exportáveis tornam o mercado internacional mais sensível e fazem grandes compradores buscarem novas origens de abastecimento. Isso fortalece gradualmente as cotações internacionais, ainda que os elevados estoques globais impeçam movimentos mais abruptos”, observa.
No Brasil, o clima também passa a ocupar posição central nas projeções para a próxima safra. Conforme Oliveira, a consolidação do El Niño aumenta o risco de excesso de chuvas durante agosto e setembro, período que concentra a implantação da safra no Rio Grande do Sul.
“Se esse cenário se confirmar, poderemos ter atrasos na semeadura, redução da área efetivamente plantada, migração para áreas menos suscetíveis ao encharcamento e impactos sobre o potencial produtivo”, destaca.
Apesar desse conjunto de fatores mais favoráveis, Oliveira ressalta que o principal limitador para uma recuperação mais intensa dos preços continua sendo o elevado volume de estoques acumulados no Mercosul.
“O mercado evoluiu nas exportações, mas ainda precisa embarcar cerca de 2 milhões de toneladas, base casca, na temporada 2026/27 para reduzir de forma mais consistente a oferta disponível. Caso isso não aconteça, parte importante desses estoques seguirá disponível em 2027”, afirma.
Na avaliação do analista, esse estoque remanescente tende a funcionar como um amortecedor mesmo diante da possibilidade de uma safra menor na próxima temporada.
“Os elevados estoques não eliminam os efeitos de uma eventual quebra de produção, mas reduzem significativamente sua intensidade. O desafio deixa de ser apenas estimar o tamanho da próxima safra e passa a ser entender a velocidade com que esses estoques serão consumidos pelo mercado interno e pelas exportações”, explica.
Para Oliveira, o mercado de arroz vive um momento de transição. “O segundo semestre deverá ser marcado menos por movimentos bruscos de preços e mais por uma reconstrução gradual dos fundamentos. A principal questão agora não é mais saber se o mercado mudou, mas com que velocidade essa transformação será refletida nas cotações”, conclui.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
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