O mercado argentino de trigo passou a discutir com mais intensidade os direitos de exportação após o anúncio da redução das alíquotas para os grãos. Segundo o analista da Safras & Mercado, Elcio Bento, no caso do trigo a taxa deve cair de 7,5% para 5,5%, uma redução de 2 pontos percentuais.
A medida melhora parcialmente a margem do exportador e o preço recebido pelo produtor, mas ainda não muda de forma significativa a competitividade do trigo argentino no mercado internacional. “Considerando os níveis atuais de preço, essa redução representa algo próximo de US$ 4,5 por tonelada a ser distribuído ao longo da cadeia exportador-produtor”, destaca Bento. Mesmo assim, ele ressalta que nem todo esse ganho necessariamente chega ao produtor.
Como a Argentina é tomadora de preços no mercado internacional, o impacto tende a aparecer mais no mercado interno. Conforme avaliação da Safras Argentina, a medida pode dar algum suporte aos preços locais, mas não resolve os problemas da exportação. “O trigo já aparece caro para exportação, enquanto um FOB mais baixo fica complicado pela margem negativa”, afirma.
O câmbio também segue como um fator importante. Bento lembra que, quando o governo reduziu a alíquota de 9,5% para 7,5% em dezembro, o efeito prático acabou sendo quase nulo, já que a queda do preço do trigo e a valorização cambial neutralizaram os benefícios esperados.
Essa percepção já vinha sendo observada pela Safras Argentina por meio da curva de preços futuros do trigo no mercado local. Com o FOB oficial mantido fixo e os custos de originação calculados pelos preços futuros, as contas indicavam margens negativas para exportação.
“Na análise inversa, mantendo as alíquotas então vigentes e utilizando os preços futuros, os valores teóricos de FOB ficavam acima do FOB oficial, sugerindo que o mercado já precificava algum tipo de redução ou até eliminação das retenciones para a nova safra”, comenta o analista.
Mesmo assim, a Safras Argentina considera que a redução anunciada ainda tem pouco impacto sobre a estrutura de preços. Com corte de apenas 2 pontos percentuais, a margem exportadora continua negativa nos níveis atuais.
Para a safra velha, válida até novembro, o impacto deve ser ainda menor. A redução tributária não resolve os principais problemas de curto prazo, como a oferta restrita, a qualidade irregular e a postura defensiva dos produtores, que seguem retendo trigo para preservar poder de compra.
Nesse cenário, a tendência é de vendas apenas conforme a necessidade de caixa, compra de insumos ou pagamento de arrendamentos.
Já para a safra nova, Bento avalia que o trigo argentino só voltaria a apresentar um FOB dezembro próximo de US$ 240 por tonelada com a eliminação total dos direitos de exportação. “Com a redução parcial de apenas 2 pontos percentuais, o mercado segue caro para exportação, limitando o potencial de queda nos preços FOB”, afirma.
A partir de dezembro de 2026, com a entrada da nova safra, o efeito pode ganhar um pouco mais de relevância, já que a tributação menor melhora parcialmente a margem do exportador e o preço líquido ao produtor. Ainda assim, o corte atual é visto como insuficiente para provocar uma queda expressiva no FOB argentino.
Para o Brasil, a avaliação segue praticamente a mesma. “A redução das retenciones ajuda na margem, mas não muda a lógica central da paridade de importação”, conclui Bento.
Segundo ele, a Argentina continuará sendo a principal referência para o abastecimento brasileiro. Porém, o custo de reposição seguirá dependente da qualidade do produto, da oferta disponível, dos preços internacionais e do câmbio argentino. Caso o trigo argentino não atenda totalmente à demanda por produto de melhor padrão panificável, os moinhos brasileiros poderão recorrer a origens mais caras, como o trigo hard dos Estados Unidos.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
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