Porto Alegre, 31 de julho de 2026 – O mercado internacional de café teve um mês de julho de balanço positivo para as cotações, sobretudo para o arábica. No Brasil, os preços acompanharam o movimento. Agitações nos mercados financeiros mexeram com o café, além de apreensões com o clima para o Brasil e para outros países produtores diante do fenômeno El Niño. Nas bolsas, sinais claros de que a curva de preços mudou mais para cima.
Segundo o analista de Safras & Mercado, Gil Barabach, o mercado recentemente reagiu em Nova York, que baliza a comercialização global do café, impulsionado pela troca de contratos e por um ambiente financeiro bastante agitado, com dólar e petróleo, além de um calendário importante na bolsa de NY. A aproximação do vencimento das opções da posição setembro/26, em 14 de agosto, aumentou ao final de julho a movimentação dos operadores.
Embora esse contrato neste final de julho já não seja mais a principal referência para a formação dos preços físicos, papel que passou para a posição dezembro/26, ele continua exercendo forte influência sobre o fluxo financeiro e, consequentemente, sobre a direção de curto prazo do mercado, observa o analista. Essa dinâmica ajuda a explicar por que o contrato setembro/26 tem apresentado desempenho superior aos demais vencimentos.
Para Barabach, o mercado segue financeiramente inflado. Os baixos estoques certificados em Nova York continuam deixando os operadores muito sensíveis a qualquer risco relacionado ao abastecimento, favorecendo movimentos bruscos de alta. “Enquanto os estoques certificados permanecerem reduzidos e sem sinais consistentes de recuperação, esse ambiente de maior nervosismo deverá continuar trazendo volatilidade de alta aos futuros de café”, comenta.
Ao componente financeiro soma-se o fator climático. “O atraso da colheita brasileira, os impactos do excesso de chuvas sobre a qualidade da bebida e as crescentes preocupações com um possível El Niño intenso no segundo semestre deslocaram a curva de preços para cima. O mercado passou a incorporar um prêmio de risco climático em um período em que, sazonalmente, a entrada da safra brasileira deveria exercer maior pressão sobre as cotações”, comenta.
O analista destaca que, tanto o calendário financeiro da bolsa quanto o chamado “mercado de clima” costuma ampliar a volatilidade. “Assim como os movimentos de alta podem ser intensos, correções também podem ocorrer com rapidez, principalmente à medida que a colheita avance e, especialmente, aumente a disponibilidade física de café”, adverte Barabach.
O fator clima gera volatilidade tanto em torno da safra 2026 do Brasil quanto para safras futuras do Brasil e de outras nações diante do El Niño. Nesta safra 2026, as chuvas fora de época atrasaram a colheita e afetaram a secagem e beneficiamento dos grãos, trazendo prejuízos à qualidade dos arábicas, principalmente. E para as safras futuras do Brasil e Colômbia (produtores de arábica) e outros países, como Vietnã e Indonésia, produtores de robusta, há temores em torno dos efeitos do El Niño, o que é um aspecto de suporte às cotações.
No balanço mensal, na Bolsa de NY, o contrato setembro acumulou alta de 9% até o fechamento do dia 30, já que havia encerrado junho a 296,45 centavos de dólar por libra-peso e fechou nesta quinta-feira a 323,05 centavos. O robusta em Londres teve alta de 3,3% no mesmo comparativo no contrato setembro.
No mercado brasileiro, os preços acompanharam a valorização em NY e Londres, mas com menor intensidade, como salientou o analista de Safras, Gil Barabach. No caso do arábica as negociações físicas utilizam o contrato dezembro/26 como referência, cujo desconto em relação ao setembro/26 aumentou nas últimas semanas, indica. Além disso, os diferenciais no FOB Santos perderam valor. O café arábica Brasil Good Cup Mtgb é indicado a -32 centavos para embarque rápido contra setembro/26 e ao redor de -25 centavos de dólar por libra-peso para embarque entre set/dez contra posição dezembro/26 em NY. “O dólar, mesmo esboçando reação recente, segue abaixo de igual período do ano passado”, observa.
No balanço de julho até o dia 30, o café arábica bebida boa no sul de Minas Gerais, safra nova, subiu de R$ 1.600,00 para R$ 1.780,00 a saca na base de compra, valorização de 11,2%. “A oferta permanece limitada pelo atraso da colheita, demora na secagem e beneficiamento e também pela postura mais cautelosa dos produtores, que dosam as vendas atento aos riscos climáticos e a valorização do café no mercado internacional”, comenta Barabach.
No balanço de julho no conilon, o tipo 7, base compra em Vitória/Espírito Santo, avançou de R$ 1.060,00 para R$ 1.080,00 a saca, alta acumulada de 1,9% até este dia 30 de julho. “Bem capitalizados com a venda de cafés remanescentes da safra 2025, os produtores têm postura retraída, avaliando o resultado final da safra e mostrando preocupações com o avanço do El Niño intenso e suas consequências sobre o potencial da próxima safra”, conclui o analista.
Lessandro Carvalho – lessandro@safras.com.br (Agência Safras)
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