Porto Alegre, 16 de outubro de 2026 – O mercado brasileiro de arroz encerra a semana em acomodação, com baixa liquidez, referências parcialmente nominais e forte retração vendedora. Segundo o analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, a recuperação que levou os preços do arroz em casca de menos de R$ 60 para mais de R$ 80 por saca perdeu velocidade, mas ainda não se transformou em uma reversão baixista.
Na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, os preços permanecem entre R$ 80 e R$ 82 por saca (sc), enquanto o porto mantém indicações próximas de R$ 90/sc para determinadas operações. Produtores capitalizados evitam ampliar as ofertas, restringindo a disponibilidade de produto, enquanto parte dos vendedores comercializa apenas o necessário para financiar a safra 2026/27.
A resistência dos produtores encontra respaldo na estrutura de custos. Conforme o levantamento mais recente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), os gastos podem chegar a R$ 90/sc no Rio Grande do Sul. “Esses valores não devem ser generalizados, mas mostram que R$ 80 a R$ 82 cobrem operações sem assegurar remuneração integral”, avalia Oliveira.
Do lado comprador, a indústria precisa adquirir matéria-prima, mas enfrenta dificuldades para aceitar os preços pedidos sem comprometer as margens do produto beneficiado. “O varejo ainda digere estoques anteriores, as importações processadas ampliam a concorrência e predominam reposição de passagem e lotes de oportunidade”, observa o analista.
A exportação segue indispensável para administrar os elevados estoques brasileiros, embora a programação portuária de outubro tenha perdido ritmo. Resta apenas um embarque de aproximadamente 35 mil toneladas de arroz em casca. Dados parciais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), até a segunda semana do mês, apontam exportações de cerca de 58 mil toneladas e importações de 49,4 mil toneladas, em base casca, resultando em um leve superávit de 8,7 mil toneladas.
O dólar acumulou três pregões consecutivos de valorização, recuperando parte do suporte à paridade exportadora. Em Chicago, os preços permanecem praticamente estáveis, em níveis elevados, com o contrato mais próximo ao redor de US$ 17,25 por quintal curto e a posição março de 2027 em US$ 18,03.
“A combinação melhora a capacidade potencial de pagamento das empresas exportadoras, mas ainda precisa converter referência financeira em contratos, originação e novos embarques”, destaca Oliveira.
No cenário internacional, dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam produção de 533,08 milhões de toneladas de arroz beneficiado, abaixo do consumo estimado em 538,80 milhões de toneladas. A diferença de 5,72 milhões de toneladas deverá ser coberta pelos estoques.
“As reservas finais de 198,50 milhões de toneladas afastam a escassez generalizada, mas sua concentração na China e na Índia limita a equivalência entre estoque estatístico e oferta exportável”, aponta o analista.
No Rio Grande do Sul, o plantio já supera 37% da área prevista, com a Fronteira Oeste próxima de 70% e a Zona Sul ao redor de 62%. Nas demais regiões, o avanço varia entre 10% e 18%, evidenciando uma forte desigualdade regional. Chuvas excessivas, solos encharcados, inundações e janelas mais curtas de trabalho continuam limitando os trabalhos nas Planícies e na Região Central.
“Semeadura não significa estabelecimento consolidado. Emergência, uniformidade, temperatura, luminosidade e nível tecnológico continuarão definindo produtividade”, ressalta Oliveira.
No curto prazo, a perspectiva permanece de estabilidade, com preços entre R$ 80 e R$ 82/sc sustentados pela retenção dos produtores. “Uma nova alta dependerá da combinação entre recuperação cambial, Chicago ao menos preservando os níveis atuais, melhora na exportação e mercado interno mais aquecido”, avalia.
Em sentido contrário, a ausência de novos contratos, as importações elevadas, a necessidade crescente de caixa e o avanço satisfatório da safra poderão ampliar a oferta e limitar a valorização dos preços, conclui o analista.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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