Porto Alegre, 14 de setembro de 2026 – O mercado de fertilizantes é um setor de grande importância estratégica. Dele dependem o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar e até mesmo a soberania dos países. Nesse contexto, a posição dos países do BRICS é favorável. Por um lado, os integrantes do grupo estão entre os maiores exportadores de fertilizantes do mundo; por outro, também figuram entre os principais importadores globais.
“A China, a Rússia e a Índia são os maiores produtores de fertilizantes do grupo. Juntos, respondem por quase 90% da produção de fertilizantes dos países do BRICS: a participação da China supera 40%; a da Rússia é de cerca de 25%; e a da Índia, de 20%. Os principais importadores de fertilizantes entre os países do BRICS são Brasil, Índia e China. Suas participações nas importações globais de fertilizantes correspondem a 18%, 11% e 8%, respectivamente”, afirmou Roman Romachkin, especialista em desenvolvimento do complexo agroindustrial e do comércio, integração agroindustrial e segurança alimentar.
Entre 2018 e 2021, a demanda mundial por fertilizantes cresceu rapidamente. Ao final desse período, o mercado global do setor ultrapassou US$ 85 bilhões (cerca de R$ 434 bilhões). Em alguns segmentos, essa tendência de crescimento permanece. Em 2025, o fornecimento mundial de potássio alcançou 74,5 milhões de toneladas, impulsionado pela forte demanda no Sudeste Asiático. Segundo estimativas de analistas, essa expansão deverá continuar em 2026, quando o volume global de fertilizantes de potássio poderá variar entre 74 e 77 milhões de toneladas. Já a demanda por fertilizantes minerais deverá ficar entre 194,6 milhões e 211,1 milhões de toneladas em 2026, de acordo com a Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes (International Fertilizer Association – IFA).
Ao mesmo tempo, a escassez de fertilizantes minerais representa um fator de risco significativo e uma ameaça à segurança alimentar. Simulações indicam que apenas a redução do uso de fertilizantes nitrogenados provocaria uma queda de 1,4% na produção mundial de milho, de 1,5% na de arroz e de 3,1% na de trigo.
Os países do BRICS reúnem condições para ampliar sua participação no mercado global de fertilizantes e impulsionar a produção de agroquímicos por meio de uma cooperação mutuamente benéfica. Atualmente, as necessidades de importação de alguns países são supridas pelas exportações de outros integrantes do grupo. O Brasil, por exemplo, é um dos maiores importadores de fertilizantes minerais, tendo a Rússia e a China como seus principais fornecedores. A Rússia responde por 32% das importações brasileiras de fertilizantes, enquanto a China representa 26%.
“Além da Índia e do Brasil, África do Sul, Etiópia e Indonésia também dependem fortemente do fornecimento de fertilizantes. Os principais exportadores de fertilizantes entre os países do BRICS atendem a 33% da demanda da África do Sul, 35% da Etiópia e 47% da Indonésia”, observou Romachkin.
A presença da China no BRICS, como maior produtora e consumidora de fertilizantes do mundo, e da Rússia, como maior exportadora global, beneficia não apenas os países do grupo, mas também as nações do Sul Global. Com isso, os países importadores têm acesso a um fornecimento estável e em grande escala desse insumo estratégico, o que reduz significativamente os riscos de perdas de safra e de crises alimentares.
Nova logística
As transformações nas cadeias globais de suprimento têm levado os países do BRICS a buscar rotas mais confiáveis e economicamente eficientes para o transporte de produtos agroquímicos. Os corredores logísticos tradicionais, como os portos do Báltico e as rotas que passam pelos mares Negro e de Azov, vêm sendo gradualmente diversificados.
Nesse novo cenário, os portos do Extremo Oriente da Rússia assumem importância estratégica. Sua capacidade operacional vem sendo ampliada de forma contínua, abrindo novas oportunidades para a exportação de fertilizantes potássicos e nitrogenados aos países da região Ásia-Pacífico, incluindo China, Índia e os países do Sudeste Asiático.
No âmbito do BRICS, estão em discussão iniciativas voltadas à criação de plataformas logísticas conjuntas capazes de padronizar as cadeias de suprimento, simplificar os procedimentos aduaneiros e garantir maior transparência na formação de preços. Em perspectiva, a proposta prevê a criação de um espaço comum de transporte e logística entre os países integrantes, com regras harmonizadas para o transporte de cargas, seguros e sistemas de rastreamento de remessas.
O desenvolvimento dessas rotas e soluções de infraestrutura deverá não apenas aumentar a confiabilidade do comércio de fertilizantes entre os países do grupo, mas também reforçar o papel do BRICS na promoção da estabilidade alimentar no Sul Global, com a redução dos riscos de interrupções no fornecimento de insumos essenciais para o setor agrícola dos países em desenvolvimento.
Perspectivas para o desenvolvimento das cadeias de suprimento
Especialistas afirmam que, para aproveitar plenamente o potencial do mercado de fertilizantes entre os países da associação, será necessário superar as barreiras comerciais existentes. Desde 2024, por exemplo, os grupos de trabalho do BRICS vêm debatendo medidas como a liberalização do comércio, a harmonização de normas, o reconhecimento mútuo de certificados de qualidade e até a eliminação de tarifas de importação sobre fertilizantes entre os países participantes.
“O comércio de fertilizantes entre os países do BRICS segue em trajetória de forte crescimento e tende a se expandir ainda mais, criando novas oportunidades, sobretudo para as pequenas e médias empresas”, afirma Guillermo Rocafort Pérez, Especialista em economia e relações internacionais.
Todas essas medidas podem contribuir para garantir o fornecimento regular de fertilizantes aos países participantes e fortalecer a segurança alimentar no Sul Global. Especialistas defendem que, além da ampliação do comércio entre os países do BRICS, é necessário criar empreendimentos conjuntos para a produção de fertilizantes no Brasil, na Índia e em países africanos, reduzindo os custos logísticos. Outro fator capaz de impulsionar esse mercado é a expansão das transações em moedas nacionais, aliada à criação de uma bolsa de grãos e commodities do BRICS.
Este artigo foi preparado por Svetlana Khristoforova, da TV Brics.
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