Porto Alegre, 23 de outubro de 2026 – O mercado brasileiro de trigo teve uma semana de baixa liquidez, com a colheita avançando no Sul sob chuvas intermitentes e a qualidade passando a determinar os preços. As indicações para o Tipo 1 se mantiveram, mas sem oferta suficiente para sustentá-las, enquanto os negócios efetivos ocorreram com lotes de qualidade inferior, sujeitos a descontos crescentes. Para o analista de Safras & Mercado, Thiago Oleto, esse cenário faz com que os preços de referência superestimem os valores efetivamente negociados.
No Rio Grande do Sul, a entrada do trigo novo pressionou as cotações. Entre 16 e 22 de outubro, a indicação de compra recuou de R$ 1.630 para R$ 1.500 por tonelada em Porto Alegre CIF, queda de 8,0%. Em Carazinho, passou de R$ 1.550 para R$ 1.420 por tonelada, baixa de 8,4%, enquanto Santa Rosa registrou recuo de 9,2%, de R$ 1.530 para R$ 1.390 por tonelada.
Paraná registra escassez de Tipo 1 e descontos por qualidade
No Paraná, as indicações permaneceram estáveis em R$ 1.520 por tonelada no preço na origem (FOB), em Cascavel e Ponta Grossa, e em R$ 1.650 por tonelada CIF em Curitiba, contra R$ 1.560 por tonelada um mês antes.
O trigo Tipo 1 tornou-se raro. Parte dos produtores misturou o produto com lotes inferiores no início da colheita, enquanto as empresas de balcão repassaram às cooperativas apenas o que atendia aos padrões exigidos.
As ofertas para outubro, com pagamento em meados de novembro, ficaram em R$ 1.650 por tonelada para o Tipo 1 posto moinho, R$ 1.450 por tonelada para o Tipo 2 CIF e R$ 1.350 por tonelada para o Tipo 3 CIF.
“O desconto por qualidade apareceu nos negócios”, observa Oleto.
No Sudoeste paranaense, lotes com peso hectolitro (PH) de 75 e número de queda (FN) de 220 foram negociados a R$ 1.350 por tonelada FOB, enquanto aqueles com PH 73 e FN 200 saíram a R$ 1.280 por tonelada. A diferença foi de R$ 70 por tonelada, cerca de 5%.
Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), a colheita atingiu 82% da área em 19 de outubro, mas com atrasos e perdas de qualidade. Apenas 45% das lavouras estavam em boas condições, enquanto 13% apresentavam condições ruins.
“Sem oferta local, o moinho tende a recorrer a Paraguai, Argentina e outras origens”, aponta o analista.
Rio Grande do Sul avança na colheita, mas qualidade permanece desigual
No Rio Grande do Sul, a colheita avançou de cerca de 5% em 18 de outubro para 15% no dia 20, conforme estimativa, e aproximadamente 25% no dia 21, segundo agentes de mercado. Já a Emater-RS/Ascar apontou 19% da área colhida em 22 de outubro, ante 9% uma semana antes.
A qualidade do produto apresentou diferenças regionais. Nas Missões e em Santa Rosa, com 30% da área colhida, o PH ficou acima de 76, sem registro de grãos brotados. Na região Celeiro, variou de 70 a 76, com presença de alguns grãos brotados. Já no Alto Jacuí, em lavouras dessecadas que receberam chuva, o PH ficou entre 70 e 74.
A presença de desoxinivalenol (DON) provocou devoluções de trigo destinado à alimentação animal (feed), enquanto o FN ficou entre 210 e 220, próximo da referência de 200.
“O PH deixou de bastar para avaliar o trigo”, destaca Oleto.
Os moinhos tentaram pressionar os preços para baixo, com negócios a R$ 1.350 por tonelada no interior e R$ 1.470 por tonelada CIF em 20 de outubro. No dia seguinte, as negociações ocorreram entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada FOB e a R$ 1.500 por tonelada CIF moinho.
Em São Paulo, a indicação de compra ficou em R$ 1.650 por tonelada CIF, mas sem vendedores.
Para o fim de semana, dias 24 e 25 de outubro, há previsão de chuvas e temporais, o que deve interferir no andamento da colheita.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
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