Porto Alegre, 30 de outubro de 2026 – O mercado internacional de café manteve a costumeira volatilidade nas bolsas de futuros de arábica em Nova York e de robusta em Londres em outubro. Mas, ela foi exacerbada com as subidas e descidas do dólar contra o real no Brasil refletindo o cenário eleitoral, e o mês teve um final de pressão nas cotações nas bolsas com a disparada da moeda americana no comparativo com a brasileira.
Nos fundamentos, houve aspectos altistas e baixistas em outubro. No lado altista, os estoques certificados na Bolsa de NY seguiram em patamares historicamente baixos, o que gera preocupações com a oferta de curto prazo. Outro fator foi a questão da qualidade dos arábicas da safra brasileira de 2026, que teve a colheita encerrada. Embora se espere a confirmação de uma produção recorde, o excesso de umidade para a colheita e secagem dos grãos prejudicou a qualidade da safra, o que naturalmente impacta a oferta dos arábicas globalmente, já que o Brasil é o maior produtor e exportador do mundo.
Ainda como fator altista, as apreensões com os impactos do fenômeno El Niño sobre a produção de 2027 do Brasil e de outros países produtores. Esperam-se condições mais adversas com o fortalecimento do fenômeno em novembro e dezembro no Brasil, com a tendência de chuvas mais irregulares e altas temperaturas, o que pode afetar o desenvolvimento da safra futura.
O mercado financeiro seguiu mexendo com o café e no começo do mês, após o primeiro turno da eleição presidencial no Brasil, o dólar despencou e deu suporte aos preços nas Bolsas de Nova York para o arábica e de Londres para o robusta. O bom desempenho do candidato Flávio Bolsonaro pesou sobre a moeda americana, já que o mercado enxergava nele uma possibilidade de um governo mais “responsável” com as contas públicas e com o controle da inflação, o que sinalizaria para taxas de juros mais baixas no futuro.
No lado baixista, o clima está favorável até aqui para a safra brasileira de 2027. As indicações foram de boas chuvas para a abertura e o pegamento das floradas que vão resultar na próxima produção. Também há boas condições no Vietnã para o robusta. Isso traz uma maior tranquilidade quanto ao abastecimento global futuro.
Outro fator é que os estoques certificados em NY estão dando sinais de poder avançar no curto prazo. Segundo a Reuters, dados indicam que cerca de 42 mil sacas de café chegaram aos armazéns da bolsa e aguardam classificação.
O mercado avalia também as exportações globais. Segundo o analista de Safras & Mercado, Gil Barabach, os embarques mundiais de café tendem a ganhar força nos próximos meses, com o Brasil no centro das atenções. “Embora as exportações brasileiras tenham crescido nos três primeiros meses da temporada 2026/27 em relação ao mesmo período do ano passado, o ritmo ficou abaixo das expectativas, especialmente no arábica, para o qual se esperava um fluxo mais intenso. Em contrapartida, os embarques de canéfora (conilon/robusta) surpreenderam positivamente. Para a Bolsa de Nova York, porém, o foco está principalmente na disponibilidade de arábica”, comenta.
Ele coloca que, para alcançar a projeção de 50 milhões de sacas exportadas na temporada, o Brasil precisará acelerar os embarques, mantendo uma média mensal superior a 4 milhões de sacas no restante do ciclo. “O ideal seria registrar volumes entre 4,5 milhões e 5 milhões de sacas por mês nos próximos três meses, criando uma margem para a desaceleração sazonal normalmente observada ao longo do primeiro semestre de 2027”, comenta.
Barabach salienta que o comportamento das exportações será, portanto, um dos principais termômetros do mercado no curto prazo. “Um fluxo mais intenso ajudaria a aliviar as preocupações dos importadores, que ainda convivem com estoques reduzidos e incertezas sobre a regularidade do abastecimento de arábica”, conclui.
Ao final do mês, os preços voltaram a cair com força nas bolsas de futuros de café, diante da forte subida do dólar contra o real após a reeleição do presidente Lula. O dólar saltou e há pressão sobre as cotações, pois a moeda americana valorizada dá maior competitividade às exportações brasileiras.
No balanço mensal de outubro, na Bolsa de NY, o contrato dezembro acumulou queda de 1,1%, caindo de 290,70 centavos de dólar por libra-peso ao final de setembro para 287,60 centavos neste final de outubro, até às 11h da sexta-feira, dia 30. O robusta em Londres teve queda de 6,7% no mesmo comparativo no contrato janeiro/2027.
No mercado brasileiro, os preços acompanharam o comportamento das bolsas. Mas, o dólar ofereceu suporte às cotações em real, pois no comercial avançou no balanço mensal de R$ 5,173 ao final de setembro para R$ 5,4257 neste dia 30 (às 11h), acumulando no período alta de 4,9%.
No balanço de outubro, o café arábica bebida boa no sul de Minas Gerais, ficou estável até o dia 29, em R$ 1.650,00 a saca na base de compra. No balanço do conilon, o tipo 7, base compra em Vitória/Espírito Santo, recuou de R$ 980,00 para R$ 960,00 a saca, baixa acumulada de 2,0%.
Lessandro Carvalho – lessandro@safras.com.br (Agência Safras)
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