Porto Alegre, 2 de outubro de 2026 – O mercado brasileiro de trigo encerrou setembro com uma mudança importante de dinâmica. O mês começou com compradores confortáveis, produtores seletivos e expectativa de que o avanço da colheita no Paraná aumentasse a pressão sobre os preços. Ao longo do período, porém, o foco migrou da quantidade disponível para a qualidade da nova safra, principalmente após episódios de chuva no Sul. Para o analista de Safras & Mercado, Thiago Oleto, o mercado físico chegou ao fechamento do mês mais valorizado em diversas praças, mas ainda com baixa liquidez e crescente diferenciação entre trigo de boa qualidade industrial e lotes inferiores.
No Paraná, setembro começou com o avanço da colheita aumentando a disponibilidade e criando expectativa de preços menores. No início do mês, havia referências próximas de R$ 1.500 por tonelada CIF para entrega imediata, R$ 1.450 por tonelada para outubro e R$ 1.400 por tonelada para novembro.
“Entretanto, as chuvas passaram a levantar dúvidas sobre produtividade e, principalmente, qualidade”, observa Oleto.
Perto da metade de setembro, havia relatos de problemas em alguns lotes, inclusive associados à brusone. A pressão de venda também apareceu pontualmente em regiões com restrições de armazenagem após a boa safra de milho.
Na segunda metade do mês, o avanço da colheita não provocou a pressão baixista que inicialmente poderia ser esperada. Em 22 de setembro, 46% da área paranaense estava colhida e 54% permanecia no campo. No fim do mês, a colheita havia alcançado 62%, deixando 38% ainda expostos.
As chuvas passaram a dificultar os trabalhos e aumentaram a preocupação com o padrão industrial. Com isso, os lotes de melhor qualidade ganharam sustentação. No Sudoeste do Paraná, as ofertas encerraram setembro próximas de R$ 1.600 por tonelada.
Rio Grande do Sul registra trajetória mais firme
O Rio Grande do Sul apresentou uma trajetória ainda mais firme. No começo de setembro, a disponibilidade da safra velha era pequena e havia distância significativa entre compradores e vendedores. As indicações de compra estavam próximas de R$ 1.355 por tonelada no preço na origem (FOB), enquanto os vendedores buscavam entre R$ 1.400 e R$ 1.500 por tonelada.
“Na segunda metade do mês, a melhora da demanda dos moinhos aumentou a fluidez dos negócios, e lotes ao redor de R$ 1.500 por tonelada passaram a encontrar compradores com maior facilidade”, destaca o analista.
No fechamento de setembro, porém, a atenção gaúcha também estava concentrada na qualidade. A colheita ainda era inferior a 1% da área e os primeiros lotes apresentavam peso hectolitro (PH) entre 73 e 80, com maior concentração próxima de 77. Os volumes ainda eram insuficientes para determinar o padrão médio da safra.
Chuvas acumuladas entre 40 e 200 milímetros interromperam a colheita justamente quando aproximadamente 20% a 25% das áreas se aproximavam da maturação.
“Setembro terminou com risco crescente de uma situação em que a disponibilidade total de trigo não seja necessariamente pequena, mas a oferta de trigo com qualidade adequada à moagem possa ficar mais restrita”, avalia Oleto.
Preços físicos refletem mudança de cenário
Os preços físicos refletem essa mudança. Entre 2 e 29 de setembro, a referência de compra em Curitiba passou de R$ 1.460 para R$ 1.630 por tonelada. Em Maringá, avançou de R$ 1.400 para R$ 1.530 por tonelada; em Carazinho, de R$ 1.360 para R$ 1.500 por tonelada; e em Porto Alegre CIF, de R$ 1.440 para R$ 1.580 por tonelada.
Em contraste, o trigo para ração (feed) permaneceu bastante depreciado. No fechamento do mês, a indicação nominal em Carazinho e Santa Rosa estava em apenas R$ 769 por tonelada, reforçando a abertura do diferencial entre trigo industrial e produto de baixa qualidade.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Agência Safras)
Copyright 2026





