Porto Alegre, 5 de junho de 2026 – O mercado brasileiro de trigo teve uma semana marcada por poucos negócios e baixa liquidez, cenário típico do período de transição entre safras. Segundo o analista de Safras & Mercado, Elcio Bento, a oferta da safra velha permaneceu restrita, especialmente no Sul do país.
“Os moinhos seguiram cautelosos nas compras diante do ritmo mais lento de moagem e das dificuldades para repassar preços da farinha ao consumidor”, disse Bento.
No Paraná, principal estado produtor, as negociações continuaram escassas. As ideias de compra dos moinhos ficaram entre R$ 1.370 e R$ 1.400 por tonelada CIF, enquanto os vendedores mantiveram pedidas entre R$ 1.400 e R$ 1.450 por tonelada FOB. A baixa disponibilidade do cereal sustentou as cotações, mas a postura defensiva da indústria limitou o fechamento de novos negócios.
No Rio Grande do Sul, o quadro foi semelhante. As indicações envolveram principalmente embarques para julho, com pagamentos em agosto ou em prazos mais alongados. Os produtores mantiveram pedidas próximas de R$ 1.350 por tonelada FOB interior, enquanto os moinhos permaneceram afastados do mercado, alegando baixa necessidade de reposição imediata.
De acordo com Bento, o mercado interno segue sustentado pela escassez de oferta disponível, mas encontra resistência do lado da demanda. “A baixa disponibilidade mantém o mercado sustentado, mas a postura mais defensiva da indústria limita a fluidez”, destaca.
Os preços permaneceram relativamente firmes ao longo da semana. No fechamento, as indicações de compra ficaram em R$ 1.480 por tonelada em Curitiba CIF, R$ 1.440 em Porto Alegre CIF e R$ 1.641 em São Paulo CIF.
No mercado de importação, o trigo argentino continuou sendo a principal referência para os moinhos brasileiros. As indicações FOB para embarques em julho permaneceram em US$ 245 por tonelada para o produto com 11% de proteína, sem oferecer alívio significativo nos custos de reposição.
Segundo Bento, o comportamento dos compradores segue condicionado ao cenário da moagem e à rentabilidade da indústria.
“Os moinhos seguem pouco agressivos nas aquisições, alegando ritmo mais fraco de moagem, dificuldade de repasse para a farinha e mercado de derivados ainda pouco favorável”, afirma.
Line-up
O line-up, programação de desembarques de trigo no Brasil, soma 4,490 milhões de toneladas no acumulado da temporada 2025/26, entre agosto de 2025 e junho de 2026. Os dados fazem parte de levantamento realizado por Safras & Mercado.
O volume mantém um fluxo relevante de abastecimento externo, embora permaneça abaixo do registrado no mesmo período da temporada anterior, quando o line-up alcançava 5,334 milhões de toneladas.
A distribuição dos desembarques segue concentrada em poucos estados, refletindo a estrutura logística de recepção do trigo importado e a importância dos polos consumidores do Nordeste e do Sudeste. O Ceará lidera os destinos, com 963.714 toneladas, equivalentes a 21,5% do total. Em seguida aparece São Paulo, com 941.336 toneladas (21,0%).
Na sequência, destacam-se Bahia, com 633.382 toneladas (14,1%), e Pernambuco, com 575.921 toneladas (12,8%), reforçando a predominância do eixo Nordeste-Sudeste na entrada do cereal no país.
Em um segundo grupo aparecem Rio de Janeiro, com 375.987 toneladas (8,4%), Paraná, com 245.670 toneladas (5,5%), Rio Grande do Sul, com 198.942 toneladas (4,4%), e Paraíba, com 154.619 toneladas (3,4%). Também registram participação Pará, com 133.610 toneladas (3,0%), Espírito Santo, com 93.650 toneladas (2,1%), Sergipe, com 93.100 toneladas (2,1%), Maranhão, com 51.900 toneladas (1,2%), Amazonas, com 15.000 toneladas (0,3%), e Santa Catarina, com 13.000 toneladas (0,3%).
Quanto às origens, entre abril e junho de 2026, a Argentina manteve ampla predominância no abastecimento externo brasileiro, com 1,010 milhão de toneladas, correspondentes a 85,7% do total considerado. O resultado reforça a centralidade do país vizinho no fornecimento de trigo ao Brasil, favorecido pela proximidade logística e pela complementaridade com a demanda dos moinhos nacionais.
Além da Argentina, a Rússia respondeu por 30.100 toneladas (2,6%) e a Turquia por 26.000 toneladas (2,2%). Pernambuco recebeu 16 mil toneladas de trigo russo e 14 mil toneladas de trigo turco. Fortaleza, no Ceará, foi destino de outras 12 mil toneladas do cereal turco, enquanto o Rio de Janeiro recebeu 14,1 mil toneladas de trigo russo.
O Uruguai participou com 9.500 toneladas, equivalentes a 0,8% do total, enquanto os volumes ainda sem definição final de origem (TBC) somaram 30.000 toneladas, representando 2,5% das programações consideradas.
Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Safras News)
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