Porto Alegre, 8 de maio de 2026 – O mercado de arroz está atravessando um dos momentos mais delicados desta temporada, não apenas para o produtor, mas também para as unidades de beneficiamento, que começam a operar sob forte deterioração de margens, baixa fluidez comercial e crescente dificuldade de sustentação financeira da operação no curto prazo. “A percepção predominante entre os agentes é de que o setor entrou em uma fase de desaceleração mais intensa do consumo justamente no momento que a oferta física da safra aumenta e a pressão logística da colheita se aproxima do pico final”, destaca o analista e consultor de Safras & Mercado, Evandro Oliveira.
A indústria, que durante fevereiro, março e parte de abril operou em um ambiente relativamente mais favorável de vendas, agora enfrenta o efeito posterior daquele movimento. Parte importante do varejo antecipou compras no primeiro trimestre, elevando volumes contratados em função de preocupações logísticas e receio de altas futuras. Isso gerou forte volume de vendas programadas para entregas em 30, 60 e 90 dias, criando momentaneamente uma percepção de demanda aquecida. “Entretanto, passada essa fase, o mercado passou a enfrentar uma desaceleração significativa na reposição”, pondera o analista.
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Hoje, o principal gargalo está justamente na ponta consumidora. Supermercados relatam menor giro nas gôndolas, vendas abaixo das metas e redução do ritmo de recompra. O varejo, diante de uma saída mais lenta ao consumidor final, passou a trabalhar com postura defensiva, evitando formação adicional de estoques. “Como consequência, as indústrias encontram crescente dificuldade de escoamento do beneficiado, especialmente em operações de maior volume”, exemplifica.
Esse cenário tem provocado forte compressão das margens industriais. Em diversas regiões, os preços do fardo do beneficiado passaram a cair em velocidade superior à redução observada no casca. Na prática, a indústria perdeu capacidade de repasse e passou a trabalhar com spreads operacionais mais estreitos. “Isso ajuda a explicar o comportamento extremamente cauteloso das beneficiadoras nas compras de matéria-prima”, afirma.
O movimento atual é de retração quase generalizada. Muitas empresas passaram a adquirir apenas volumes pontuais, focadas em reposição imediata ou oportunidades específicas de compra. Segundo Oliveira, não há disposição significativa para alongamento de posição ou ampliação de estoques em um ambiente de baixa previsibilidade comercial. “Ao mesmo tempo, o fluxo de oferta vindo do campo aumentou, principalmente por parte de produtores mais pressionados financeiramente”, acrescenta.
Esse é outro componente importante da conjuntura atual. O produtor capitalizado ainda mantém postura defensiva, represando parte da safra na expectativa de melhora das cotações. Porém, produtores com maior necessidade de liquidez vêm ampliando a oferta ao mercado para cumprimento de compromissos financeiros, custeio e vencimentos operacionais. Assim, o mercado passa a conviver simultaneamente com aumento da disponibilidade física e enfraquecimento da capacidade de absorção industrial.
Os leilões de apoio à comercialização realizados recentemente também não produziram o impacto esperado sobre a dinâmica do mercado físico. Apesar da expectativa inicial de que os mecanismos ajudassem a destravar o fluxo comercial e estimular o escoamento, a percepção predominante entre agentes é de que os efeitos práticos ficaram abaixo do necessário para alterar estruturalmente o quadro de liquidez. O volume negociado ficou abaixo do esperado, enquanto a exportação segue limitada pela perda de competitividade cambial.
Nesse contexto, o câmbio permanece como variável central para o setor. Com dólar orbitando níveis próximos de R$ 4,90, o arroz brasileiro continua enfrentando dificuldades importantes de competitividade internacional, especialmente diante da concorrência de outros exportadores e do avanço do arroz beneficiado vindo do Mercosul no mercado doméstico.
Outro ponto relevante é o movimento promocional observado no varejo nas últimas semanas. Grandes marcas e redes ampliaram ações comerciais para acelerar o giro dos estoques, trabalhando com preços promocionais mais agressivos. “Embora essa estratégia ajude momentaneamente na saída do produto, ela também reforça no mercado a percepção de viés baixista, estimulando parte dos compradores a postergar aquisições na expectativa de preços ainda menores adiante”, pondera o consultor.
O resultado é um ambiente de forte defensividade em toda a cadeia. O varejo reduz recompras, a indústria retrai aquisições, o produtor amplia gradualmente a oferta por necessidade financeira e o mercado perde profundidade operacional. “Mais do que um problema isolado de preço, o setor enfrenta hoje um desequilíbrio de ritmo entre oferta, consumo e capacidade de absorção da cadeia industrial”, finaliza.
Rodrigo Ramos (rodrigo@safras.com.br) / Agência Safras News
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