O mercado do feijão carioca inicia março sob um quadro de paralisia comercial quase total. O analista de Safras & Mercado, Evandro Oliveira, explica que esse cenário deriva diretamente do choque entre preços historicamente elevados e a forte resistência do consumo final.
Na Zona Cerealista, sucessivos pregões foram encerrados sem registro de negócios, evidenciando um ambiente de liquidez praticamente nula. De acordo com o analista, corretores reduziram a presença diante da ausência de compradores, enquanto parte dos vendedores também optou por se retirar momentaneamente do mercado, aguardando sinais mais claros de demanda.
“Nesse contexto, as cotações passaram a assumir caráter predominantemente nominal, sem validação por transações efetivas”, comenta.
Os preços de referência seguem elevados. O feijão extra continua sendo ofertado na faixa de R$ 375 a R$ 380 por saca CIF São Paulo, enquanto padrões com cor 8,5 orbitam próximos de R$ 360/sc. Já nas origens, o mercado converge para cerca de R$ 350/sc FOB nas principais regiões produtoras.
“Apesar da firmeza dessas indicações, a ausência de negócios impede a confirmação real desses patamares”, observa Oliveira.
No consumo final, o preço do feijão nas gôndolas, na faixa de R$ 8,00 a R$ 9,00 por quilo, reduziu o ritmo de reposição por parte dos empacotadores. O analista avalia que parte da indústria opta por trabalhar com estoques já adquiridos ou embarques diretos previamente contratados, evitando novas compras no pico de preços.
Do lado da oferta, a situação segue estruturalmente apertada. A primeira safra já foi encerrada em estados-chave como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Paraná, deslocando o produto disponível para estoques armazenados. Além disso, Oliveira destaca que há restrição adicional de grãos de alta qualidade no mercado físico, com parte dos lotes remanescentes concentrada em câmaras frias ou vinculada a embarques programados.
Feijão preto mantém suporte mesmo com mercado lento
O mercado do feijão preto também inicia março em ritmo moderado, refletindo a mesma cautela observada no restante da cadeia, embora com fundamentos ligeiramente distintos.
“A liquidez segue reduzida, com volume limitado de negócios nas principais praças do Sul do Brasil”, comenta o especialista. Ainda assim, diferentemente do carioca, o mercado do preto mantém algum grau de fluidez pontual, sustentado por preços relativamente mais acessíveis ao consumidor.
No Paraná, principal referência produtiva, o feijão preto extra, Tipo 1 recém-colhido, é negociado próximo de R$ 190/sc FOB, com operadores de mercado indicando possibilidade de avanço para R$ 195/sc caso a demanda apresente alguma reação. Em Santa Catarina, os preços já superam R$ 180/sc, enquanto no interior de São Paulo as indicações recuaram para cerca de R$ 210/sc, refletindo ajustes recentes.
Apesar dessas oscilações regionais, o mercado ainda opera dentro de um intervalo relativamente estável, com tendência apenas levemente altista nas origens do Sul.
Parte das expectativas do setor está concentrada na possibilidade de migração parcial do consumo do feijão carioca para o feijão preto nas próximas semanas. Oliveira destaca que, com o carioca operando em níveis historicamente elevados, o diferencial de preço pode estimular parte dos consumidores a buscar alternativas mais acessíveis, favorecendo o giro do preto no varejo.
Assim, lembra o analista que “embora o mercado permaneça relativamente lento no curto prazo, os fundamentos de oferta seguem oferecendo suporte às cotações, especialmente caso a demanda doméstica volte a apresentar maior dinamismo nas próximas semanas”.
Ajuste de área marca produção da segunda safra 2025/26
A estimativa para a produção da segunda safra 2025/26 consolida um movimento de ajuste estratégico entre os grandes produtores, com redução deliberada de área, produção mais contida e ganhos pontuais de produtividade. O analista de Safras & Mercado aponta que se trata de uma recomposição estrutural que ainda não recompõe a oferta nacional.
O Paraná lidera o redesenho da safrinha. O corte de 24,1% na área reflete migração direta para soja e milho, culturas com melhor previsibilidade de margem e menor risco comercial. Mesmo com forte avanço de 20,4% na produtividade, a produção recua 8,6%. O estado permanece altamente produtivo, porém com menor participação estrutural na oferta nacional.
Em Minas Gerais, o papel segue central, mas em ambiente mais adverso. A retração de 3,9% na área e na produção, somada à estagnação da produtividade, expõe maior sensibilidade ao risco climático e fitossanitário. O analista alerta para o aumento do risco de incidência de mosca-branca, especialmente em regiões de clima mais seco e quente.
São Paulo reforça esse sinal de cautela. Apesar da queda de 4,5% na área, a produção avança cerca de 1,1%, sustentada por ganho de 5,9% na produtividade.
Na Bahia, o crescimento ocorre via expansão de 6,3% na área, mas com queda de 4,8% na produtividade. O quadro indica aumento de volume com menor eficiência agronômica e maior exposição ao clima.
Já Tocantins desponta como principal vetor de expansão, com área 30,7% maior e aumento de 24,7% na produção, mesmo diante da perda de rendimento.
Luciana Abdur – luciana.abdur@safras.com.br (Safras News)
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