O FED (o banco central dos EUA) pode estar em um processo de mudança de foco na elaboração da sua política monetária. Antes a meta era reduzir a inflação, e manter os juros altos, ou como o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) diz, em ‘política moderadamente restritiva’. Mas, com o aumento no desemprego, as discussões parecem estar mudando de direção.
O banco central norte-americano está enfrentando um dilema, especialmente depois da divulgação do payroll de dezembro. O indicador mostrou uma desaceleração na criação de vagas (foram 50 mil, ante previsão de 73 mil) e queda no desemprego (4,4%, ante previsão de 4,5%).
Inflação e desemprego
Para Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, o Fed notou que o desemprego começou a subir, mesmo com a inflação ainda fora da meta do banco. “Isso deixou a autoridade monetária desconfortável porque, apesar da inflação não estar dentro da meta de 2%, se o desemprego começa a subir muito, o PIB começa a se machucar”, afirma.
“Sabendo que a inflação está cedendo, não na velocidade que se esperava, mas o desemprego começou a mostrar sinais de crescimento, a autoridade monetária passou a olhar com mais atenção esse fator, mas sem tirar do radar a inflação”, acrescenta.
Payroll
“O Fed não tomará nenhuma decisão futura com base apenas nesses dados, após a taxa de desemprego nos EUA ter ficado em 4,4%”, afirma Steven Blitz, economista-chefe para os EUA da TS Lombard. “Os dados são instáveis e sujeitos a revisão”. O especialista aponta que os dados serão revisados, o que pode trazer ainda mais imprecisões. “Grandes revisões virão no próximo mês, deixando os dados de dezembro com uma grande ressalva”, diz ele.
Os dados do payroll vieram com informações conflitantes. O setor de educação privada e serviços de saúde foi responsável pela grande maioria das vagas criadas no período (41 mil). Por outro lado, os demais setores (tecnologia, construção, indústria, serviços empresariais, serviços financeiros, varejo, transporte e logística, entre outros) foram responsáveis por apenas 7% da criação de empregos nesse período.
“Em dezembro, esse conjunto de setores, inclusive, perdeu 51 mil empregos e registrou apenas um mês de alta nos últimos oito meses. Isso deveria ser muito preocupante para todos e reforça a mensagem de que o Fed precisa oferecer um pouco mais de apoio à economia”, afirma James Knightley, economista chefe internacional nos EUA da ING.
Divisão entre diretores
Os analistas acompanham os discursos dos membros do banco, e perceberam que há uma divisão nítida entre eles. Há os que são favoráveis a mais cortes e os que preferem manter a taxa atual.
“As visões dos novos integrantes do FOMC Anna Paulson (presidente do Fed Filadélfia) e Neel Kashkari (presidente do Fed Minneapolis) serão de particular interesse. Pelas declarações mais recentes, ambos tendem a defender um ciclo de cortes de juros mais gradual”, afirmam os analistas da ANZ Research.
“Não é incomum observar divergências de opinião no FOMC. O que chama a atenção é que o Conselho de Governadores, em sua maioria, apoia um afrouxamento monetário gradual. Nossa avaliação é que o pano de fundo macroeconômico justifica novos cortes de juros”, acrescentam.

