O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu o argumento de que a economia brasileira vem reagindo satisfatoriamente às políticas públicas e pode crescer sem pressões inflacionárias. Na sua avaliação, “ajuste super ortodoxo abre buraco nas contas públicas”. O ministro participou do encerramento da Arko Conference 2025, que debateu desafios e perspectivas para a economia brasileira, no auditório da Galápagos Capital, em São Paulo (SP).
O ministro disse que a atual trajetória da taxa Selic está “ultra restritiva” e que “ajuste super ortodoxo e recessivo abre buraco nas contas públicas”.
Haddad defendeu moderação e persistência no cumprimento das metas e disse que o governo não vai abandonar as metas fiscais por motivos eleitorais.
“Não é fácil convencer as pessoas que fazer ajuste é necessário”, desabafou. “Mas nós vamos manter o curso da nossa política cumprindo as metas. O presidente Lula não vai inventar nada exótico por razões eleitorais”, garantiu.
O ministro considera que o processo de desancoragem no ano passado “teve um pouco de artificialismo” e disse que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) “decepcionou”. “Na reunião do FMI, todos estavam convencidos de que o Fed iria começar um ciclo de cortes de juros.”
Haddad disse que a retórica da autoridade monetária dos Estados Unidos traz incertezas em relação à trajetória do dólar no mundo.
O ministro também reiterou sua confiança de que o Brasil vai atrair investimentos e disse que, afastadas as preocupações com “deslizes” fiscais, os investimentos virão.
Em relação às negociações sobre o projeto de reforma da renda, Haddad disse que se orgulha de ter contribuído com o desenho da política pública. “Ela é muito elegante, mas conseguiu continuar isento grandes acionistas. Mas é um modelo que efetivamente pega quem não paga. Em benefício de pessoas como policiais militares, enfermeiros, professores, que hoje pagam 10% da renda.”
Haddad disse que estressou muito o modelo a fim de deixar a política pública adequada à realidade brasileira. “A reforma do consumo aconteceu porque nós criamos uma secretaria para apoiar o Parlamento. Todas as contribuições serão endereçadas e serão avaliadas pela equipe técnica”, disse.
O ministro disse que ainda não recebeu palpites dos congressistas sobre a medida. “1% de alíquota é uma das tributações mais regressivas do mundo. Ainda não recebi consultas, mas vamos avaliar os impactos. Nosso foco é fazer justiça social.”
Agenda com o Congresso
O ministro falou sobre a agenda com o Congresso para os próximos meses, que inclui temas microeconômicos e acredita que o panorama fiscal será superado. “O remédio na dose certa é o ingrediente mais correto para passar essa fase.”
MP 1202
Haddad disse que se a MP 1202 tivesse sido aprovada, muitos problemas teriam sido evitados.
“A liminar do [ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano] Zanin não foi cumprida e não houve compensação. Temos metas a cumprir. Lembrando que estamos com um déficit de 2,5% do PIB desde 2014, 2016. Por isso que eu falo de harmonia entre todos os poderes.”
Precatórios
Haddad falou sobre a “tese do Século”, que implicou um prejuízo de 10% do PIB. “Não sei nem explicar o que aconteceu naquele julgamento. Mas retroagir 5 anos, teve empresa que teve enriquecimento sem causa. No ano passado, tivemos R$ 60 bi de compensação num julgado de 2017. Como se administra as contas públicas assim?”, comentou.
O ministro disse que o governo está explicitando os riscos dessas medidas para as contas públicas. “Não temos condição de ter outro baque como aquele.”
“Não sabemos se essa barriga que teve, gastamos muito pagando precatórios. A impressão que dá é que, para se cumprir teto de gastos, foi-se empurrando problemas. Mas o Supremo definiu que não tem calote.”
Julgamento do ex-presidente Bolsonaro
Ao ser questionado sobre “quanto o julgamento do Bolsonaro vai atrapalhar os temas que são realmente relevante”, Haddad respondeu que considera o debate muito importante. O debatedor disse que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, indicou que sua avaliação sobre o julgamento do ex-presidente vai nessa direção.
“Para mim, esse debate é relevante. Talvez para o Tarcísio não seja relevante ter um ambiente democrático. Nada é mais relevante do que a liberdade dos cidadãos brasileiros.”
Cynara Escobar – cynara.escobar@cma.com.br (Safras News)
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