São Paulo, 20 de março de 2026 – Em discurso em evento da Petrobras em Minas Gerais nesta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criticou a guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã e seus efeitos na economia global.
“Quando nós vimos que o resultado da intromissão do presidente Trump no Irão ia trazer prejuízo para nós, eu chamei a Magda [Chambriard, presidente da Petrobras], que estava em Nova Iorque e, nunca nós agimos tão rápido. Num único dia, nós discutimos, fizemos a medida provisória, aceitamos tirar 32% de impostos e fazer a subvenção”, disse. “Mas, quando percebemos, vimos que tinha gente aumentando [o preço do diesel], e aumentando sem critério”, disse ao justificar as ações de fiscalização aos reajustes abusivos.
Lula disse que “não é possível aceitar” que os preços dos alimentos e do custo de vida do trabalhador brasileiro aumentem por conta guerra no Oriente Médio.
Para conter a pressão externa sobre o preço do petróleo, o governo federal anunciou um pacote de medidas. Entre elas, a isenção das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel na importação e na comercialização, com o objetivo de frear a alta do combustível.
O governo também editou uma Medida Provisória (MP) que institui uma subvenção ao óleo diesel para produtores e importadores, a ser operacionalizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), condicionada à comprovação de repasse do benefício ao consumidor. A MP ainda prevê a adoção do Imposto de Exportação como instrumento regulatório para estimular o refino interno e garantir o abastecimento no país.
Negociação com o Irã em 2010
O presidente Lula disse que o Brasil não está em guerra com o Irã e relembrou um episódio de 2010. “Eu não tenho nada com o Irã. Aliás, vou contar uma história pra vocês”, disse. “Se os Estados Unidos e a União Europeia tivessem bom senso, eles teriam aceitado o acordo que o Brasil e a Turquia fizeram com o Irã em 2010.”
O acordo mencionado pelo presidente previa a entrega da 1,2 tonelada de urânio de baixo enriquecimento (3,5%) para a Turquia em troca de combustível para um reator nuclear a ser usado em pesquisas médicas em Teerã. A previsão era que o urânio iraniano ficaria guardado na Turquia sob vigilância turca e iraniana. Após um ano, o Irã receberia 120 quilos de material enriquecido a 20%. O entendimento tinha como base uma proposta da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, órgão da ONU). O acordo, no entanto, não prosperou por ação dos EUA.
“Eu passei dois dias em Teerã conversando com o [Mahmoud] Ahmadinejad. Fizemos um acordo e convencemos eles de que o Irão não tinha que enriquecer o urânio para fazer armas, mas para fazer do mesmo modo que o Brasil enriquece, para fins científicos. Eles concordaram, colocamos no papel, e os EUA e os europeus não aceitaram e depois fizeram um acordo mequetrefe”, disse Lula.
Lula também criticou a guerra dos EUA contra o Iraque e disse que “é preciso parar de acreditar em mentiras”.
Estoque regulador
O presidente defendeu que a Petrobras tenha um estoque regulador de petróleo. “Nós precisamos, ao longo do tempo, construir um estoque regulador pra gente não ser vítima do que está acontecendo hoje. E se essa guerra durar 40 dias? E se o Irã não deixar sair nenhum barril de petróleo ou os EUA resolverem estourar do estreito de Ormuz?”, questionou o presidente.
Lula ainda contou que conversou com a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, sobre o assunto e que Magda teria dito que um estoque desse tipo “custa muito caro”.
“Se o país é soberano, ele tem que estoque de arroz, estoque de feijão, de alguma coisa que não seja perecível para enfrentar crises.”
Lula disse acreditar que os EUA tenham estoques, “por viverem em guerra”, assim como a China e a Rússia. “Temos que pensar em um plano para ter nossos estoques e fazer o Brasil um país grande de verdade.”
Lula diz que Petrobras buscará recomprar Refinaria de Mataripe na Bahia
Em discurso em evento da Petrobras em Minas Gerais nesta sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a criação da Petrobras e o controle estatal da empresa para a soberania energética do País e criticou as tentativas de privatização da empresa ao longo de sua história. Ele também criticou a venda do braço de distribuição de combustíveis da companhia e lembrou da compra da distribuidora de gás em 2003 para garantir o controle do preço do botijão pela Petrobras, que também foi vendida posteriormente.
“Se hoje a gente tivesse as nossas empresas, teríamos muito mais facilidade de entregar para todo mundo. Da mesma forma, privatizaram a BR, dizendo que não é rentável, etc. Se não fosse rentável, nenhum empresário privado ia querer comprar”, disse Lula, ao defender a permanência da BR Distribuidora como ativo da Petrobras como condição para garantir maior controle dos preços dos combustíveis aos consumidores finais.
O presidente disse que Petrobras voltou a ser rentável nos governos do seu partido (Partido dos Trabalhadores, PT). “Todo dia saía na imprensa que a Petrobras era deficitária porque o PT era incompetente, por que a Dilma era incompetente, e no ano passado, no governo do PT, a Petrobras voltou a ser a empresa mais rentável desse país”, discursou.
Lula indicou que a Petrobras poderá recomprar a Refinaria de Mataripe (antiga Refinaria Landulpho Alves, Rlam), na Bahia, vendida pela petroleira para a Acelen, do fundo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos, durante o governo de Jair Bolsonaro.
“Vamos comprar de volta a refinaria na Bahia. Pode demorar um pouco, mas nós vamos”, disse Lula, ao lado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante evento na refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (MG).
CEO defende estratégia de preços e diz que a Petrobras evita repassar nervosismo internacional ao mercado interno
Em declaração em evento da Petrobras em Minas Gerais, a presidente da empresa, Magda Chambriard, defendeu a estratégia de preços da companhia, pois disse que ela evitar o repasse da volatilidade do mercado internacional ao mercado interno. A executiva disse que a Petrobras está adotando medidas para proteger o mercado brasileira das oscilações internacionais do petróleo geradas pela guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã.
“A nossa estratégia de preços é real e está funcionando, pra baixo e pra cima. Qual é a nossa premissa básica? Evitar o repasse do nervosismo internacional e da volatilidade do preço internacional para o mercado brasileiro”, afirmou.
Ela disse que as dez refinarias da estatal estão operando com 98% da capacidade. A refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (MG), local do evento e foco dos investimentos anunciados nesta sexta-feira, estava destinada ao desinvestimento há anos atrás, com operação em 60% de sua capacidade, segundo Magda. “Uma refinaria que tem capacidade de processamento e refino 170 mil barris por dia produzia 60% disso. Os investimentos voltaram e essa refinaria está produzindo 100% e, até o fim do ano que vem, ela vai estar produzindo 200 mil barris de petróleo por dia”, disse a CEO. O investimento nessa expansão será de R$ 3,2 bilhões em 2026.
A executiva disse que, nos próximos cinco anos, os investimentos de R$ 5,2 bilhões na refinaria permitirão aumentar sua capacidade de processamento para 240 mil barris diários. “Estamos retomando diversos ativos da Petrobras.”
A presidente da Petrobras disse que a empresa vai anunciar a reabertura e início da produção de biodiesel em Quixadá (CE). Atualmente, o combustível é produzido em várias refinarias da Petrobras, inclusive nas refinarias de Minas Gerais e São Paulo.
Ministro de Minas e Energia diz que 52 distribuidoras já foram multadas por aumentos abusivos
Em declaração em evento da Petrobras em Minas Gerais, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse que o governo federal tomou as medidas necessárias para impedir que os brasileiros paguem pela guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento na refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim (MG), o ministro citou as medidas anunciadas pelo governo federal para tentar reduzir o preço do diesel, como a isenção dos impostos federais, o programa de subvenção ao diesel e o aumento da fiscalização a aumentos de preços abusivos por distribuidores de combustíveis. O ministro disse que mais de 52 distribuidoras já foram multadas e 1.192 postos de combustível foram fiscalizados pelos órgãos federais nos últimos três dias.
“Infelizmente, a usura e a irresponsabilidade daqueles que estão na ponta comercializando os combustíveis e os distribuidores fizeram com que a gente avançasse na fiscalização, em um passo a mais, nas medidas tomadas para controlar os preços”, disse, citando a atuação da agência reguladora, Ministério da Justiça e Procons.
Silveira disse que o governo brasileiro não dará “trégua” para combater “cartéis” do setor de combustíveis que têm elevado seus preços em meio aos impactos da guerra no Golfo Pérsico.
Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento em refinaria de Minas Gerais, Silveira disse que o governo estabeleceu parcerias entre a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Polícia Federal e o Ministério da Justiça, para coibir abusos nos preços.
“Esperamos que os Procons se envolvam cada vez mais para que a gente consiga continuar avançando na autuação aos postos de gasolina no Brasil, combatendo os cartéis através dos inquéritos que já foram instalados pela Polícia Federal”, disse Silveira.
O ministro de Minas e Energia voltou a criticar a privatização da BR Distribudora e disse que o Brasil teria melhores condições de suprimento e referência de preços se a venda da distribudora ao mercado não tivesse sido feita.
“As ações do governo federal não dão trégua para que a gente atravesse este momento que não está sob o gerenciamento do Brasil”, disse ele, referindo-se aos impactos da guerra.
Cynara Escobar – cynara.escobar@cma.com.br (Safras News)
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