Porto Alegre, 29 de outubro de 2026 – O Banco Central Europeu (BCE) manteve as taxas de juros inalteradas nesta quinta-feira, horas depois de a presidente Christine Lagarde afirmar que deixaria o cargo antecipadamente. A decisão rotineira sobre os juros oculta as nuvens de tempestade que se formam sobre seus últimos meses à frente da instituição e a série de desafios que seu sucessor herdará.
Os mercados de títulos franceses estão sendo abalados pela volatilidade. Os preços da energia permanecem persistentemente elevados. E a saída de Lagarde dará início a uma das mudanças de liderança mais significativas da história do banco central, com a disputa por sua sucessão começando efetivamente nesta quinta-feira.
O BCE manteve sua principal taxa de depósito em 2,5%. Assim como no Federal Reserve — que também manteve as taxas inalteradas na quarta-feira —, os investidores acreditam que o próximo movimento do BCE será uma elevação dos juros em dezembro. Já a taxa de refinanciamento seguiu inalterada em 2,65%.
O futuro de Lagarde
Lagarde deverá deixar o BCE em fevereiro, e o Conselho Europeu informou nesta quinta-feira que iniciará imediatamente o processo de escolha de seu sucessor. Lagarde afirmou que assumir a presidência do Fórum Econômico Mundial é uma das possibilidades para seu próximo passo. Ela também manifestou interesse em desempenhar um papel nas eleições presidenciais francesas do próximo ano, embora tenha insistido que não é candidata.
Espera-se que os líderes da União Europeia preencham tanto o cargo de Lagarde quanto outros dois postos que ficarão vagos no conselho do BCE, como parte de um único pacote de nomeações. A reunião do Conselho Europeu em dezembro é vista como uma possível data para um acordo.
Os líderes da União Europeia já estão se posicionando para preencher os cargos. O ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, afirmou nesta quinta-feira que “a Alemanha usará sua influência como a maior nação da zona do euro” para ajudar a preencher as vagas.
Títulos franceses
A decisão do banco sobre os juros foi a primeira desde que o mercado de títulos públicos franceses foi tomado por uma forte onda de vendas. Os rendimentos dos títulos públicos franceses de 10 anos subiram para 5%, o nível mais alto desde 2002.
Os investidores acreditam que o BCE terá um limiar elevado para intervir. “É um pouco como estar entre a cruz e a espada. Eles não querem ser vistos socorrendo erros políticos internos”, afirmou Gordon Shannon, gestor de portfólio da TwentyFour Asset Management.
O banco poderia aliviar a pressão sobre o mercado de títulos desacelerando o ritmo do chamado aperto quantitativo (quantitative tightening), que reduz gradualmente seu balanço patrimonial ao permitir que os títulos vençam sem serem substituídos. O banco central também dispõe de um instrumento de compra de títulos lançado em 2022, em meio a uma onda de vendas no mercado de títulos italiano, conhecido como Instrumento de Proteção da Transmissão (Transmission Protection Instrument).
Esse instrumento nunca foi utilizado, e os investidores continuam incertos quanto às condições em que poderia ser acionado.
Mesmo que o BCE não tome nenhuma medida, os problemas da França já estão restringindo as opções do banco central. Os investidores acreditam que o BCE provavelmente terá cautela ao elevar ainda mais os juros, temendo que isso aumente a pressão sobre a economia e os mercados financeiros franceses, que já se encontram frágeis.
Inflação
Enquanto isso, a inflação está pressionando o banco na direção oposta, à medida que os preços da energia sobem e não há perspectiva de uma solução para a guerra no Oriente Médio. A inflação ao consumidor na zona do euro atingiu uma taxa anual de 3,8% em setembro, afastando-se ainda mais da meta de 2% do BCE.
Dirigentes do BCE afirmaram que ainda não estão observando sinais dos chamados efeitos de segunda ordem, como uma aceleração dos salários. No entanto, a recente retomada da alta dos preços da energia, especialmente do gás natural, aumentou as preocupações de que a inflação possa se tornar mais difícil de controlar nos próximos meses. Os preços do gás natural na Europa subiram 36% neste mês, enquanto o continente se prepara para o inverno com níveis baixos de reservas.
Muitos investidores estão se preparando para que os Estados Unidos e Israel intensifiquem sua guerra contra o Irã após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Isso poderia elevar ainda mais os preços e deixar o BCE dividido entre combater a inflação e preservar a estabilidade financeira na França.
“Não acho que a França impeça o banco de voltar a elevar os juros, mas acredito que isso limita até que ponto a instituição estará disposta a aumentá-los”, afirmou Mike Bell, chefe de estratégia de mercado da RBC BlueBay Asset Management.
As informações partem da Agência Dow Jones.
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