Porto Alegre, 17 de julho de 2026 – A safra brasileira de trigo em 2026 deve registrar redução de 20% na área plantada, segundo nova estimativa de Safras & Mercado. A consultoria projeta o cultivo de 1,905 milhão de hectares no país, contra os 2,381 milhões de hectares da temporada anterior. A produção potencial é estimada em 5,855 milhões de toneladas, recuo de 27,9% frente às 8,120 milhões de toneladas colhidas no ciclo anterior. O rendimento médio nacional também deve cair, de 3.410 quilos por hectare para 3.073 quilos por hectare, retração de 9,9%.
Para o especialista de inteligência de mercado de Safras & Mercado, Elcio Bento, a redução da área reflete uma mudança de comportamento do produtor diante de um cenário econômico mais adverso. Segundo ele, a piora da relação entre custos de produção e preços do trigo foi o principal fator por trás da decisão de reduzir a semeadura.
A alta dos fertilizantes, sobretudo os nitrogenados, impulsionada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, encareceu a implantação da lavoura, enquanto os preços seguiram pressionados pela ampla oferta global e pela concorrência do cereal importado. “É uma das piores relações de troca da história recente da triticultura brasileira”, afirmou o analista.
Bento também relembra que após anos seguidos de margens reduzidas ou negativas, os produtores chegaram à safra 2026 mais endividados e com menor capacidade de investimento, o que dificultou o acesso ao crédito rural. Outro ponto destacado é a ausência de uma política de seguro agrícola suficientemente robusta e confiável.
“Muitos produtores avaliaram que o retorno esperado da cultura não compensava a exposição financeira diante da possibilidade de perdas provocadas por eventos climáticos extremos, reduzindo o incentivo para ampliar a área ou investir em tecnologias de maior custo”, disse Bento.
Para o analista, se a produção de 5,855 milhões de toneladas se confirmar, o Brasil deverá ampliar as importações de trigo para mais de 8 milhões de toneladas, especialmente em um cenário de El Niño, que aumenta o risco de perdas de produtividade e de qualidade dos grãos.
Produção do Rio Grande do Sul deve cair mais de 33%
No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, a área caiu 28,6%, para 750 mil hectares. A produção potencial recuou 33,3%, para 2,4 milhões de toneladas; o rendimento médio passou de 3.428,6 kg/ha para 3.200 kg/ha (-6,7%). No Paraná, segundo maior polo produtor, a área diminuiu 13,5%, para 740 mil hectares, com produção estimada em 2,2 milhões de toneladas, queda de 21,4%, e produtividade de 2.973 kg/ha (-9,2%).
Retrações também foram registradas nos demais estados. Em Santa Catarina, a área recuou 13,6%, para 95 mil hectares, com produção de 300 mil toneladas (-21,1%). Em São Paulo, a área também caiu 13,6%, para 95 mil hectares, e a produção somou 320 mil toneladas (-19,0%).
Em Minas Gerais, a área diminuiu 10,7%, para 125 mil hectares, mas a produção teve a maior queda entre os estados, de 40,0%, para 330 mil toneladas. O reflexo disso, segundo Bento, é o impacto da estiagem sobre as lavouras de trigo sequeiro.
Em Goiás e no Distrito Federal, a área recuou 11,8%, para 75 mil hectares, com produção de 230 mil toneladas (-22,0%). No Mato Grosso do Sul, a área caiu 20,0%, para 20 mil hectares, e a produção somou 50 mil toneladas (-28,6%). Na Bahia, tanto a área quanto a produção recuaram 16,7%, para 5 mil hectares e 25 mil toneladas, respectivamente.
Conforme Bento, as estimativas representam o potencial produtivo inicial e ainda não consideram eventuais perdas climáticas, exceto em Minas Gerais e Goiás, onde a estiagem já afetou parte das lavouras de sequeiro. Nos demais estados, a projeção reflete principalmente a redução dos investimentos em tecnologia e uma postura mais cautelosa dos produtores.
Ritiele Rodrigues – ritiele.rodrigues@safras.com.br (Agência Safras)
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