São Paulo, 2 de janeiro de 2026 – O setor frigorífico cai em bloco na sessão desta sexta-feira (2) após o Ministério do Comércio da China confirmar no último dia 31 a imposição de uma tarifa adicional de 55% sob a carne bovina brasileira, que incidirá quando os volumes ultrapassarem cotas previamente estabelecidas. Por volta das 15h38 (horário de Brasília), a Minerva (BEEF3) figurava como a principal baixa do Ibovespa, de 6,25%, a R$ 5,40, enquanto os papéis da MBRF (MBRF3) recuavam 3,45%, a R$ 19,29. Já JBS (JBSS32) tinha perda de 2,59%, a R$ 77,08.
Para o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, da RB Investimentos, a notícia de cota de 1,1 milhão de toneladas para as importações de carne da China para o Brasil é bem negativa para as ações do setor de proteínas, justificando as quedas mais intensas dos papéis das companhias no início do primeiro pregão de 2026.
O analista avalia que a diferença em relação às tarifas anunciadas pelos Estados Unidos é que o anúncio chinês não parece ser “negociável”, mas uma decisão estratégica pensada para ser algo de médio a longo prazo. “O ponto, assim como na questão tarifária, visto em Minerva, JBS e MBRF foi buscar alternativas nos países vizinhos. O Brasil começou a exportar carne para a Argentina e concentrou as exportações da Argentina para os Estados Unidos. As empresas podem fazer algo semelhante e pode tentar atingir as cotas com as suas plantas em outros países. A Minerva é a maior exportadora de proteína animal para a China, disse o analista. “Outra diferença é a boa relação entre os países.”
Apesar dos pontos mencionados, Cruz reitera que a notícia é negativa. “A China é extremamente próxima ao Brasil, o governo disse que vai tentar tirar o que está em trânsito das cotas, mas é claro que é uma notícia ruim, por que é uma mudança relevante em um dos maiores mercados da carne brasileira. Ainda têm outros mercados, têm vários em crescimento, na Ásia, na África, que estamos começando a estabelecer relação comercial, mas é um início de ano com uma notícia bem negativa para o setor”, finaliza.
BTG Pactual reitera visão seletiva no setor após cotas de importação da China
O BTG Pactual divulgou análise sobre notícias recentes de que o governo da China decidiu implementar cotas anuais de importação para todos os principais fornecedores de carne bovina, incluindo Brasil, Argentina, Uruguai, Austrália e Estados Unidos, citando que, após uma “investigação” de um ano, as autoridades chinesas anunciaram que as importações de carne bovina foram consideradas prejudiciais ao desenvolvimento da cadeia de suprimentos de carne bovina doméstica.
O banco destaca que as importações que excederem a cota de cada país estarão sujeitas a uma tarifa adicional de 55% e que a cota total de importação para 2026 foi fixada em 2,7 milhões de toneladas, abaixo das cerca de 3 milhões de toneladas que a China deve ter importado em 2025. Além disso, o banco lembra que o Brasil, que responde por mais da metade das importações de carne bovina da China, estimadas em 1,6 a 1,7 milhão de toneladas em 2025, deverá ser o mais impactado, com uma cota isenta de impostos de apenas 1,1 milhão de toneladas para 2026.
A análise contextualiza que a rápida ascensão da China como o maior importador de carne bovina do mundo, menos de uma década depois de se tornar um importador líquido, destaca não apenas o forte crescimento do consumo de carne bovina, mas também o papel crescente que as importações têm desempenhado no equilíbrio da oferta interna. A demanda por carne bovina na China quase dobrou nos últimos 15 anos, chegando perto de 12 milhões de toneladas em 2025, com a maior parte do aumento da oferta vindo de importações, destaca o BTG.
“A história nos ensinou que nenhum país está disposto a depender de importações de energia ou alimentos por muito tempo. Parece ser exatamente disso que se trata. É provável que a China não esteja disposta a permitir que as importações se tornem significativamente mais relevantes na matriz de oferta de carne bovina local. Tributar as importações provavelmente aumentará os preços locais da carne bovina, incentivando a produção local a longo prazo”, avaliam os analistas do banco.
O BTG também cita que, no Brasil, as exportações de carne bovina representam cerca de 30% das vendas totais, com cerca de 3 milhões de toneladas exportadas nos últimos doze meses. A China representou 54% desse volume (1,6 milhão de toneladas), o equivalente a cerca de 15% da produção total de carne bovina do Brasil.
“Com aproximadamente um terço das exportações para a China provavelmente precisando ser redirecionado para outros países, estimamos que cerca de 5% da produção brasileira de carne bovina precisará encontrar destinos alternativos.”
O banco também cita o que foi observado no mercado de aves no início deste ano, quando a China manteve as restrições por um longo período após o caso de gripe aviária no Brasil em maio, de que o principal desafio não é redirecionar os volumes, mas sim encontrar mercados dispostos a pagar o que a China paga por cortes específicos brasileiros. “A China absorve e precifica cortes que poucos outros mercados demandam, o que sugere alguma pressão sobre os preços realizados para os exportadores brasileiros. Lembre-se: o comércio de proteínas é um jogo de soma zero, portanto, um mercado endereçável menor para esses cortes de carne bovina provavelmente levará a um preço unitário de venda mais baixo.”
“Em última análise, a decisão é inflacionária para a carne bovina doméstica na China e deflacionária para a carne bovina em todos os outros lugares”, estima o BTG.
No entanto, o banco também cita aspectos positivos. Empresas com uma presença de produção geograficamente mais diversificada na América Latina podem estar em melhor posição para lidar com os volumes, já que as cotas de isenção de impostos para países como Argentina e Uruguai excedem seus volumes de exportação atuais para a China. Além disso, as cotas devem aumentar 2% ao ano nos próximos dois anos, justamente quando esperamos que o Brasil esteja nos estágios iniciais de um ciclo de retenção de gado, o que deve restringir o crescimento da oferta. Como resultado, o suposto excesso de oferta pode se mostrar menos agudo no médio prazo.
Na avaliação do BTG, o setor de carne bovina brasileiro tem feito um trabalho fantástico na abertura de novos mercados para a carne ao longo dos anos. Em 2025, as tarifas de importação impostas pelos EUA, então o segundo maior destino do Brasil, tiveram pouco impacto sobre o total das exportações, já que os volumes foram redirecionados com sucesso.
“O caso da China é indiscutivelmente mais relevante e, embora não esperemos que os exportadores, principalmente os maiores players sob nossa cobertura, saiam ilesos, a situação parece administrável.”
“Nossa principal preocupação é que a China pode não ser mais vista como o principal motor de crescimento do setor, o que poderia afetar o perfil de crescimento de longo prazo dos exportadores de carne bovina.
O BTG reitera sua visão seletiva sobre o setor de proteínas e a JBS como única ação com recomendação de compra.
Cynara Escobar – cynara.escobar@cma.com.br (Safras News)
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